Uma sepultura para Teodoro Recalde

Assassinado a golpes de facão por jagunços, o índio guarani kaiowá Teodoro Recalde foi perseguido além da morte: um fazendeiro queria deixá-lo apodrecer nos grotões do Mato Grosso do Sul.

Por Renan Antunes de Oliveira
De Paranhos, Mato Grosso do Sul

 


É a terra, estúpidos!

Por 40 anos testemunhei, nos grotões e nas calçadas das grandes cidades, a tragédia indígena brasileira. Entrevistei muitos de seus personagens: padres manipuladores, antropólogos vaidosos, guerreiros da web, caciques bebuns, índios domesticados, crianças ranhentas, fazendeiros assassinos e jagunços cruéis.

Quando achei que já tinha visto tudo soube da morte, a golpes de facão, de Teodoro Recalde,  em 27 de setembro do ano passado, em Paranhos, no Mato Grosso do Sul.

Ele foi vapt vupt na mídia. Um mártir sem tempo para ser curtido no cargo: ficou  espremido entre os assassinatos de seus dois primos, os  professores guaranis Rolindo e Genivaldo Verá, e o sumiço do cacique Nísio Gomes, célebres na internet.

A morte dele é diferente porque acrescentaram ao crime a suprema negação: um fazendeiro cismou que não queria ver “aquele índio vagabundo” nem enterrado em sua fazenda — mandou deixar o corpo na beira da estrada.

Foi preciso uma ordem judicial para abrir a cova de Teodoro Recalde.

Esta é sua história:

Contaram-me que cinco indiozinhos esperavam pelo pai na aldeia Y’poi, ao cair da noite em que o mataram, a terça-feira 27 de setembro de 2011.

Teodoro Recalde saiu ligeiramente bêbado de um boteco de Paranhos, cidade na fronteira com o Paraguai. Disse a companheiros de trago que queria “voltar pra casa mais cedo” porque levaria pão e refrigerante pros filhos.

Talvez o álcool tenha feito este índio de 33 anos ignorar os jagunços que ainda hoje cercam sua aldeia — ela fica num lote invadido pela tribo em 2009, dentro da fazenda São Luiz.

O bloqueio já dura três anos. A ordem do cerco é do dono da fazenda, Fermino Aurélio Escobar, de 80 anos. Ele já tentou sem sucesso despejar os kaiowás pela força e pela fome, enquanto tanta obter na Justiça uma ordem de despejo.

Para voltar o índio deveria ter esperado a escuridão da madrugada e usar uma rota por baixadas e riachos, atalhando com cautela pela fazenda vizinha, a Cabeça de Boi.

Tanto esforço para se chegar numa aldeia pra lá de miserável. É composta por meia dúzia de barracos de plástico. Não tem luz, nem água.

Está fincada numa nesga de mato inservível para pastagens — a fazenda São Luiz que a cerca é do tamanho de dois mil campos de futebol, com mil cabeças de gado gordo.

O crime

“O melhor caminho para a Y’poi seria cruzar a fronteira para o lado paraguaio, aumentaria a caminhada em quatro quilômetros, mas evitaria os jagunços”, ensina o cacique Anastácio Peralta. “Nosso irmão deveria ter sido cuidadoso”, lamenta.

Ainda no boteco, quando o índio anunciou que tentaria furar o bloqueio, alguém o avisou com um “abre o olho Teodoro”. Sem demonstrar medo ele começou, meio trôpego, sua última caminhada, na companhia de duas mulheres da tribo — é delas o relato do crime.

Aconteceu quando eles estavam quase chegando na aldeia. Foram descobertos pelos jagunços, liderados por um apelidado “Negão”.

O encontro fatal se deu na rota mais conhecida, a baixada perto do riacho da fazenda Cabeça de Boi.

Montado num cavalo escuro da raça quarto de milha Negão atacou sem aviso. Golpeou o índio com porrete e facão, várias vezes, até deixá-lo sangrando e inconsciente. Em pânico, as mulheres correram para a aldeia.

A agonia

Teodoro Recalde agonizou sozinho e morreu em algum momento da noite quente daquela terça — na manhã seguinte, quando o corpo foi encontrado, o pão e o refrigerante tinham sumido.

As mulheres podem ter sido poupadas para contar o que viram e assim infundir terror na pequena aldeia Y’poi — a idéia é fazer com que a tribo abandone a fazenda São Luiz.

Quando elas chegaram com a notícia do crime, lá pelas 10 da noite, o resultado foi oposto — afinal, Teodoro Recalde já era o terceiro assassinado no pedaço.

O cacique Rodolfo pegou o celular e disparou telefonemas, alertando outros índios do crime: “Está acontecendo de novo, mataram mais um irmão nosso”.

Kure! Kure!Kure!

Antes de continuar é preciso contar uma pequena história paralela: a do assassinato em 31 de outubro de 2009 de dois primos de Teodoro Recalde, os professores Rolindo e Genivaldo Verá.

Eles lideraram a invasão Y’poi em 27 de outubro — quatro dias depois morreriam por causa dela, legítimos mártires da causa guarani kaiowá.

Os dois primos levaram pra Y’poi 50 indígenas da aldeia Pirajuy, em sua maioria  velhos, mulheres e crianças — guiados por seu Mário Verá, de 89 anos.

Quando eles acamparam naquele lote no cocoruto de um morro, o capataz da São Luiz ligou para o patrão Escobar por celular. O pai chamou os filhos Rui, Evaldo e Fermino Filho, três cinquentões sarados.

Eles acionaram a prefeitura e o Sindicato Rural de Paranhos para pedir ajuda aos vizinhos e organizar o despejo: o lema deles é “um por todos e todos por um”.

No dia seguinte, dois cavaleiros da fazenda São Luiz fizeram o reconhecimento do terreno invadido. Constataram que os índios estavam desarmados.

O presidente do sindicato e vereador Moacir Macedo circulou pela cidade de megafone contratando peões e jagunços paraguaios para o despejo — por lá, o pessoal primeiro tenta resolver a coisa com sua milícia particular, só se falhar é que vai à Justiça.

O prefeito Dirceu Bettoni participou da logística da batalha que logo aconteceria cedendo um caminhão F4000 branco, da secretaria de Agricultura — transporte para os jagunços.

No sábado 31 de outubro Rui, Evaldo e Fermino Filho se reuniram com Moacir e sua tropa de jagunços num galpão da São Luiz.

O pessoal foi armado com porretes, espingardas e pistolas — com ao menos uma Luger calibre 9mm, a preferida dos nazistas, capricho que mais tarde permitiu aos peritos da Polícia Federal identificar seu dono: Fermino Aurélio Escobar Filho.

A tropa teve churrascada com muita cerveja e cachaça. De barriga cheia, o pessoal  descansou um pouco na sombra do galpão.

Lá pelas três da tarde os jagunços já estavam recompostos e receberam a ordem de atacar — por todos os relatos, foi Rui Evaldo Nunes Escobar quem liderou o ataque.

Os  jagunços foram até perto do pé do morro, desembarcaram do caminhão da prefeitura e entraram no mato para “atacar a aldeia de forma covarde e violenta”, como mais tarde descreveu o promotor Thiago Luz, do Ministério Público Federal, na denúncia contra os atacantes à Justiça.

Eles entraram
gritando “kure”
enquanto davam
tiros para o alto
e na direção
das pessoas

A PF ouviu testemunhas: “Eles entraram gritando “kure” (significa porco, em guarani) enquanto davam tiros para o alto e na direção das pessoas”.

No ataque, “atingiram o idoso Mário Verá com uma paulada” e “alguém acertou um tiro nas costas de Genivaldo”.

Sem nenhuma chance de revidar, os índios debandaram. Depois que os atacantes se foram eles voltaram para a terra invadida. Resgataram e trataram seus feridos.

Genivaldo, furado de bala, seria recolhido uma semana depois no fundo de um riacho. O corpo de Rolindo nunca mais foi encontrado.

Denunciados pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário, órgão da Igreja Católica), os assassinatos ganharam repercussão internacional.

O Tribunal Regional Federal da 3ª Região ordenou um cessar-fogo, permitindo a permanência da tribo na aldeia Y’poi até a Funai provar que a terra pertenceu aos guaranis — o processo burocrático começou antes da invasão e se arrasta há sete anos.

Lula incluiu a aldeia no Plano Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), sob supervisão da Secretaria de DH da Presidência da República, mas nos grotões esta medida tem o efeito de um traque.

A Justiça levou dois anos para acolher a denúncia do MPF contra a filharada do velho Escobar. O caso está parado na 1ª Vara Federal de Ponta Porã. Os réus estão soltos. Um batalhão de advogados diz que eles são inocentes.

Como o fazendeiro não conseguiu  despejá-los pela força, então proibiu a entrega de cestas básicas aos índios. Até hoje o dia a dia da aldeia Y’poi por comida é um jogo de  gato e rato.

Para cumprir sua própria lei, os Escobar fecharam a fazenda São Luiz com um cordão de  jagunços, entre eles Negão — o que nos leva de volta ao crime de Teodoro Recalde.

O complicado resgate do cadáver

Quando as mulheres deram a notícia do ataque, a tribo não tinha como resgatá-lo.

O cacique fez o que um branco faria: chamou a polícia. Neca. Ele então pediu socorro a padres católicos e pastores evangélicos.

Os padres chamaram “seu João”, o chefe da Funai em Paranhos. Só na manhã seguinte aquele diligente funcionário conseguiu uma equipe para resgate. Com as dicas das mulheres, a polícia chegou ao cadáver.

Morto, Teodoro Recalde era o improvável mártir da hora da causa indígena.

Em vida, ele não era militante-alvo. As lideranças são as mais visadas nos ataques de jagunços.

Ele fazia o tipo desligadão. Fumava muita maconha paraguaia, quase de graça por lá. Tinha levado a família para a Ypo’i por insistência da irmã, uma guerreira quando se tratava de cuidar dos cinco filhos dele.

Passava o tempo todo fora da aldeia, fazendo bicos nos canaviais ou bebendo nos botecos — não era nem um invasor tipo aqueles de exibir arco e flecha para fotógrafos ou cantar gritos de guerra ante câmeras de TV.

O pessoal do Cimi acha que Teodoro Recalde foi morto não só pela ousadia de tentar furar o cerco, mas sim por ter sido confundido com um cacique.

O delegado da Polícia Federal Guilherme Santana, que investiga o caso de terno e gravata naqueles grotões, disse que já viu “muito assassinato de índios que parecem coisa de jagunços, mas não são, e outros que parecem coisa dos próprios índios, mas que são de jagunços”.

As duas índias moram na aldeia e sabem a diferença.

Elas testemunharam contra o jagunço Negão na delegacia da Polícia Civil de Paranhos. Deram detalhes até da cor do cavalo — por lá, as pessoas identificam os animais dos vizinhos assim como na cidade se reconhecem carros nas garagens dos condomínios.

O delegado local não saiu à cata do acusado porque isto seria função da PF, mas ela só apareceu três dias depois do enterro.

A PF começou no caso devagar quase parando, entrevistando os policiais da delegacia de Paranhos no maior sigilo, para não melindrar os colegas.

Enquanto isto, o jagunço Negão, visto nos botecos da cidade no mesmo cavalo algumas horas depois do crime, sumiu de vez. O cavalo também.

A PF patinou na primeira versão dada pelas índias. Os agentes não gostaram porque elas só falavam guarani e eram traduzidas por um cacique que eles consideraram “hostil”: sabe-se lá qual é a guerra dos federais.

Um índio de fora da aldeia foi contratado para interrogá-las. Assustadas pelo desconhecido, as índias ficaram de bico calado.

Um agente da PF disse que “as índias mentem para ajudar na causa deles de retomada da terra”. Pedindo confidencialidade, ele diz ao repórter que “os índios são matreiros, jogam no solo da fazenda São Luiz ossos de antepassados desenterrados de outro local, para que antropólogos da Funai atestem que são terras de ancestrais”.

Com esta linha de investigação, fica fácil fazer um update em 4 de novembro de 2012: o crime de Teodoro Recalde continua sem solução. Negão nunca foi encontrado.

Caixão de 800 reais

O corpo dele foi para a funerária Pax Vita, de Paranhos, e dali para uma autópsia na cidade vizinha de Ponta Porã. Confirmado, morte por pauladas e facadas.

A Fundação Nacional da Saúde pagou a conta de 800 reais pelo caixão.

No fim do mesmo dia as autoridades liberaram o corpo para o enterro — foi quando começou um drama dentro do drama.

Os índios foram barrados na tentativa de sepultar Teodoro Recalde na Y’poi, a “teko-há”, terra sagrada deles.

Jagunços impediram a passagem do cortejo fúnebre pela São Luiz — fecharam a porteira mesmo com a presença da Funai, da polícia e, última ofensa, ante o caixão.

“Dei a ordem porque eu não queria aquele índio vagabundo enterrado na minha fazenda”, admite sem rodeios o fazendeiro Escobar, pai.

O impasse espantou até os advogados do Cimi, acostumados com tudo. A Funai recorreu à Justiça. Um pedido foi levado com urgência à 1ª Vara Federal de Ponta Porã, a mesma onde corre a ação de despejo da aldeia.

Enquanto se dava a batalha legal, o corpo rolou pelas estradas dentro de uma camionete, sem destino, por 48 horas — até sair a ordem judicial obrigando o fazendeiro a permitir o enterro na Y’poi.

O precedente de sepultamento em terra disputada foi considerado afronta pelos fazendeiros da região, solidários com a decisão do patriarca dos Escobar.

Dom Fermino curvou-se à Justiça, mas não sem resmungar: “Por mim poderiam jogar o corpo na beira da estrada”.

“Esta terra é minha”, diz o fazendeiro

A história não pode continuar sem um breve perfil deste homem.

Ele é muito respeitado no pedaço. Invoca direito ancestral branco: “Herdei tudo do meu pai, Romão, que herdou do meu avô, Miguel”, este um espanhol que chegou a Paranhos em 1886, depois que a Guerra do Paraguai quase dizimou os guaranis. Escobar quer deixar tudo para os filhos: “Esta terra é minha”, afirma, com orgulho.

O patriarca conta que “no tempo do meu avô os índios não eram problema”. Ele também gosta de apontar para um ponto atrás de um galpão e dizer “minha mãe está enterrada ali” —dois argumentos usados no processo de despejo dos índios.

O homem chega para entrevista montando um cavalo quarto de milha de pelo claro. É forte, atarracado, muito branco, fica vermelho quando pega sol.

Ele jura que na terra dos guaranis não tinha nenhum guarani: “Nasci em 1932 e não havia índio naquele tempo, estes da Y’poi vieram do Paraguai para me tomar a terra”.

Neste ponto da fala ele gesticula como se estivesse suplicando, franze o rosto, pede compaixão aos interlocutores: “Estes índios estão infernizando minha vida, outro dia me roubaram uma vaca”!

Escobar se recompõe e avisa: “Assim não posso continuar trabalhando aqui”. Aí ele  informa que comprou uma fazenda maior ainda, na Amazônia, supostamente para escapar dos guaranis que lhe roubaram a tal vaca.

Escobar fala o que lhe dá na telha. Para o delegado Santana ele disse “me ajude a me livrar deste problema que então eu posso ajudar vocês”, parando segundos antes de oferecer propina ao delegado pra despejar os índios.

Sem que ninguém lhe pergunte ele diz que a morte de Teodoro Recalde “foi coisa de briga entre cachaceiros” — já tentando salvar a pele dos filhos.

É que poucos dias desta entrevista os três filhos dele seriam acusados pelo MPF do crime contra os professores. Fácil constatar que por ali só os Escobar têm interesse no despejo da Y’poi, além da provada ousadia de fazê-lo pela força.

Na casinha da  FUNAI

O último ato antes do sepultamento de Teodoro Recalde aconteceu na sede da Funai, em Paranhos — nesta cidade com megaconflitos, ela é apenas uma meia-água. Com certeza os banheiros do Ministério da Justiça, que dirige o órgão, são mais amplos, mais limpos, mais seguros e mais bem equipados.

O encarregado naqueles dias do enterro era o tal seu João que resgatou o corpo. Ele não disse o sobrenome para não se comprometer.

Temia pela vida e pela reputação: implorou para não sair em reportagens porque queria ser transferido. Ele se queixa que em Paranhos precisa estar em sintonia com a prefeitura e com as autoridades estaduais, estas francamente contra a causa indígena.

“O conflito de interesses paralisa minha repartição”, desabafa — quais as qualificações exigidas e como alguém é escolhido para o cargo dele são mistérios.

Depois que a Funai obteve a ordem judicial para o enterro, um aliviado seu João despachou o caixão do índio guarani para a aldeia Y’poi.

Choveu um pouco ao amanhecer daquele sábado primeiro de outubro de 2011. A cerimônia foi rápida.

Não teve seu João, nem padre, nem pastor — mas teve pajé.Os filhos choraram a morte do pai.

Alguém tirou as fotos que ilustram esta reportagem.Elas mostram que o guarani kaiowá Teodoro Recalde foi para sempre sepultado na sua tekohá, coberto pela terra que nunca lhe pertenceu.

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