O Tri Legal do Paradão

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Rosto conhecido pelo centro de Viamão, Ronaldo trabalha todos os dias em sua cadeira de rodas no Paradão da cidade como vendedor ambulante para sustentar a família.

Por Tiago Bianchi

 


 

Quem passa de ônibus pelo Paradão do Centro de Viamão certamente já se deparou com a figura que é Ronaldo de Oliveira. De segunda a segunda, das 8h às 18h, ele anda de ponta a ponta pela estação de ônibus em sua cadeira de rodas. Seu sustento vem da venda de títulos de capitalização e outros objetos úteis ao dia a dia dos passageiros como isqueiros, limpadores de fogão, lanternas e canetas.

Seu bordão “Tri Legal, Tri Legal” é o anúncio do trabalho do aposentado de 53 anos. Ronaldo trabalha há mais de quatro anos no Paradão para sustentar a família. Sua mulher, Cláudia Oliva de Lima, 42 anos, trabalha como dona de casa. Juntos eles têm duas filhas, de 10 e 17 anos, e um filho mais velho de 21 anos, que ajuda na renda familiar. Recebendo uma aposentadoria de R$ 500 por mês, devido a uma paralisia rara que limitou os seus movimentos da cintura para baixo, Ronaldo trabalha como vendedor ambulante para complementar a renda.

“Eu sempre trabalhei com publico, falando direto com as pessoas em volta” conta ele com um sorriso quase escondido pela gola de lã.

A doença de Ronaldo é a Paralisia Espástica Tropical, uma infecção pelo vírus HTLV tipo 1, da mesma família da AIDS. A doença gera pequenos sintomas em aproximadamente 3% a 5% dos infectados e apenas 1% a 2% desenvolvem a doença que lhe atacou a medula e as pernas. No começo, Ronaldo sentia falta de equilíbrio e força para andar.

“Chegou uma hora, quando eu tinha uns 37 anos, que já não conseguia mais parar em pé.”

Devido a sua doença, a principal dificuldade de Ronaldo é a locomoção de sua casa no bairro Santo Onofre até o Centro. Apesar de trabalhar na frente da garagem da Empresa Viamão, raramente um carro adaptado para levar passageiros deficientes aparece. Durante os dias da semana ele já decorou até os horários e consegue voltar para casa próximo das 18h.

“Eu enfrento muito problema para voltar nos domingos porque o sorteio do Tri Legal atrasa e eu fico empenhado.”

Os problemas continuam no trajeto da parada até sua casa. Para vencer as ruas esburacadas e apertadas, Ronaldo precisa do apoio total da familia. Ele também enfrenta o perigo de quedas e o clima de insegurança do bairro.

“Mesmo assim eu nunca fui assaltado porque eu sempre soube me cuidar.”

Além da família, Ronaldo conta com a ajuda de amigos para poder se virar. Seu rosto é visto com carinho pelos vendedores do Paradão. Apesar da vida simples, ele é conhecido pela simpatia e prestatividade. Sua bondade é representada pela história de sua cachorrinha, a Boneca.

A cadela começou a segui-lo pelo Paradão no ano passado. Ele retribuiu a companhia com comida e pequenos agrados. Depois de um tempo, ela não o seguia apenas pela estação, mas até mesmo dentro do ônibus. Ele não aguentou: com a ajuda de uma veterinária, ela foi vacinada, castrada e finalmente encontrou um novo lar na casa de Ronaldo.

“Ela me adotou primeiro e depois eu adotei ela.”

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