O Tempo de Fruet e os Cozinheiros

O cantor e compositor a frente da banda Fruet e os Cozinheiros, vive de pensar a música. Seja a dele, ou a dos outros, o Chef Marcelo Fruet , 33 anos, é produtor musical há 11, e já ganhou diversos prêmios. Portanto: grave este nome.

Por Tiago Lobo

Natural de Porto Alegre, na música só começou por insistência.Queria tocar guitarra, ter banda e etc. Conquistou o instrumento aos nove anos, como presente da família, com a condição de aprender a tocar violão. Condiçao aceita, faltava a banda, então Fruet começou a tocar com amigos da rua. Nesta época compôs a música “A Praia”, que tinha o seguinte refrão: “A praia tem peixe, a praia tem bixo, a praia tem gente, a praia é um lixo”, pois ele não queria saber do litoral. Seu negócio era passar as férias tocando.

Com 12 anos Fruet montou sua primeira banda, a Flor de Lis, composta por um teclado, sua guitarra e uma bateria improvisada com caixas. Daí seguiram-se as bandas Nephila, Bichano da Massa, Universo Colorido e Groove James até chegar na cozinha ideal.

Mas muito antes ele já pensava na música além de um hobby adolescente. Queria viver disso e a maioria dos seus colegas, não. Sua vontade era tão grande que ele chegou a ensinar um amigo a tocar contrabaixo pra poder entrar num grupo.

Na Bichano da Massa, eles se endividaram, foram morar quatro meses em Santa Catarina pra poder pagar os equipamentos, mas conseguiram gravar o primeiro disco.

Ampliando horizontes

“Aí foi um mundo que se abriu na minha frente”. Fruet conta que sonhava em gravar músicas com muitas vozes, em várias pistas. Então usava um gravador simples e passava o áudio de uma fita pra outra, mas lembra que isso “era um sofrimento”. Quando chegou no estúdio pôde colocar em prática tudo o que bolava.

Infelizmente o disco não teve duração. O trabalho foi lançado em dezembro e logo em março Fruet foi parar em Los Angeles, como bolsista para estudar música na Los Angeles Music Academy (LAMA). O que era pra ser uma experiência de um mês, durou um ano. Tempo extra que permitiu que o músico juntasse dinheiro para abrir seu estúdio, logo que voltou para Porto Alegre.

Foi a estadia em Los Angeles que lhe aproximou do universo da gravação profissional. Seu colega de quarto estava se formando no curso de gravação da LAMA. Aí lhe deu a lista de livros do curso: Fruet os comprou e leu tudo.

Então o músico, que desanimava quando pensava nos altos custos para montar um estúdio, e que pedia amplificadores emprestados aos amigos para poder tocar, voltou pra sua cidade com um clássico Fender Twin Reverb, e outros equipamentos que usa até hoje e deram início ao seu Estúdio 12 — Experiência Sonora.

Depois de tantas experiências com bandas desmanchadas, Fruet decidiu fazer uma carreira solo, mas com banda fixa, dando liberdade pros músicos opinarem e experimentarem. Sem qualquer pretensão que não fosse fazer música.

O mote do som era “Que continue pop no sentido da digestão, mas que seja diferente… Que se sinta uma personalidade e que tem alguma coisa pensante ali”.

Que continue
pop no sentido
da digestão,
mas que seja
diferente…
Que se sinta
uma personalidade
e que tem alguma
coisa pensante ali

Aí formou-se, em 2005, “Fruet e os Cozinheiros”, com Marcelo Fruet (Violão e voz), Leonardo Brawl (Contrabaixo elétrico), Nicola Spolidoro (Guitarra) e André Lucciano (Bateria).Além de dois “Cozinheiros honorários”, Mateus Mapa (Flauta transversa) e João Marcelo Selhane (Percussão).

Em 2006 a banda foi apontada pelo programa de rádio Solano Ribeiro e a Nova Música do Brasil (Cultura Am, 1200 kHz) como uma das diferentes vozes do samba nacional, pela música Samba da Conexão. No ano seguinte, duas canções de Fruet foram trilha do programa Big Brother Brasil e os Cozinheiros não pararam mais.

No ano de 2008 veio o primeiro disco, intitulado “O Som do Fim ou Tanto Faz”. Em março com o apoio do Ministério da Cultura, Fruet e os Cozinheiros foram aos E.U.A, para sua primeira turnê internacional. Na terra do Tio Sam os brasileiros passaram por cinco estados e participaram do festival South by South West (SXSW), em Austin, Texas. A viagem rendeu um documentário que pode ser assistido no canal da banda no Youtube.

No mês seguinte, em Abril, o Chef e os Cozinheiros faturaram quatro estatuetas na 17ª edição do Prêmio Açorianos de Música: Melhor Compositor, Melhor Projeto Gráfico, Revelação do Ano e Prêmio Destaque Cultura RBS/ Menção Especial.

Como produtor produziu e participou de discos de artistas como Flu, Chimarruts, Da Guedes, Os The Darma Lóvers, Zumbira & os palmares, Renascentes, Pública, Apanhador Só e outros. Os dois últimos lhe renderam prêmios de melhor produtor.

O novo caminho

“Pensando alto, brincando de brincar”. A frase que abre a canção El Mariacchi, que Fruet compôs aos 15 anos, parece atual se confrontada com o conceito do seu novo disco, que se chamará Aión: uma das três palavras gregas para designar tempo, sob uma outra lógica. Aión representa o tempo enquanto ciclo e a Intensidade do tempo da vida humana, um destino.

O trabalho é financiado pelo Fumproarte, possui participações de diversos convidados, e representa, para Fruet, o que ele foi, o que ele é e o que ele será.

Para chegar na origem do seu novo trabalho, Fruet estudou os conceitos de tempo de diversos pensadores e chegou em Heráclito, que diz que o tempo “é uma criança que brinca, Seu reino é o de uma criança. O reino da criança brincando é a criança se fazendo de criança”.

Outro conceito muito presente neste novo disco é o da teoria do espelho, de Lacan. O nome do disco remete a tempo, mas a estética se rende a ilusão do espelho. Este trabalho contém canções do passado, do presente e de toda a vida de Fruet. “Tem o que eu fui, tem o que eu acho que fui, tem o que sou e nem sei que sou, e talvez tenha um pouco do que serei”, reflete o músico.

No repertório do grupo esses temas são recorrentes. No primeiro albúm existe a faixa Todo Tempo, e no novo trabalho entra uma música chamada Tempo, que emprestou o nome a uma temporada de shows da banda em 2010.

novo CD já está em fase de gravação, mas não tem uma data fixa para lançamento. Para quem quiser acompanhar de perto os trabalhos de estúdio, e conhecer um pouco dos músicos envolvidos no processo, Fruet e os Cozinheiros tem lançado diversos episódios de um “Documentário em fragmentos”, dirigido por Daniel Bacchieri, com apoio da Zeppelin Filmes, em seu canal do Youtube.

Enquanto isso, Fruet continua no tempo, ou Aión, que para Platão é “o eterno mundo das ideias”.

Relacionados