O piloto mais mentiroso do mundo

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Por Tiago Lobo

Uma aeronave modelo Galaxy C5-M pode transportar até 380 toneladas de carga e alcançar 12.6 mil metros de altura a até 920km/h. Isso equivale a 2.4 vezes a velocidade máxima atingida pelo escocês David Coulthard no GP de Fórmula 1 da Itália de 2000: 361,8km/h. No entanto, para o piloto aposentado de 76 anos, Paulo Ney de Castro Menezes Silva, a imaginação é a única força que o permitiria alçar este tipo de voo, ignorando o peso das suas fantasias nem um pouco inofensivas que arrastam realidades alheias.  Ele é um fabulista das alturas: piloto da aviação civil demitido da Varig em 1996, emaranhou-se em uma rede de mentiras que extrapolam limites legais e internacionais.

Filho de um procurador do RJ, que deu nome idêntico ao “júnior”, Paulo Ney tinha o hábito, ainda na Varig, de distribuir cartões de visita se fazendo passar pelo pai. O típico “carteiraço”. Aos colegas pilotos, para não dar tão na cara, rasurava o cartão removendo os dizeres “Dr.” E “Procurador”.

Aeronave Galaxy C-5 de uso da força aérea norte-americana (Foto: U.S. Air Force / Brett Snow)

A ficha do aviador

O filho autoproclamado “Procurador”, envolveu-se em uma discussão em 30 de julho de 2005 após um acidente de trânsito em Niterói (RJ). Não satisfeito com uma troca de agressões com outro condutor, Paulo Ney sacou uma arma de fogo e disparou contra seu desafeto, atingindo a parte posterior da coxa da vítima e mais uma pessoa que passava pelo local. Segundo os autos foi “erro de execução”. E só podia, Paulo Ney não tinha licença para possuir uma arma: foi condenado pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e lesão corporal, com pagamento de indenização.  

Em 18 de fevereiro de 2010 Paulo Ney aparece pela primeira vez em uma notinha de jornal na coluna do jornalista Ancelmo Gois, de O Globo, com suas fantasias mirabolantes. Barrigada eternizada pela internet das coisas:


Ferido de guerra

General da ONU, o brasileiro Paulo Ney foi ferido em Bagdá e chegou ontem ao Rio, no voo 442 da Air France. No desembarque, o supervisor da PF do Tom Jobim, acredite, queria que ele ficasse na fila de 400 pessoas para entrar no país. 
O comandante mostrou seus ferimentos, contou que havia saído de uma cirurgia de oito horas e que, por isso, não estava fardado”.

Dois anos depois fica mais sensacional: em 26 de agosto de 2012 a história continua, com o mesmo colunista, mas assinada pela jornalista Ana Claudia Guimarães:


Piloto mais antigo em antiguidade (sic)

O brasileiro Paulo Ney, 69 anos, recebe dia 6 agora homenagem em Bagdá por ser o piloto mais velho do mundo a continuar comandando avião de grande porte, como o Jumbo/Boeing 747-8 e Galaxy C5-M (de uso exclusivo militar). 
Ele é piloto da ONU, faz missões humanitárias para países em guerra, tem 51 anos de voo e dois ferimentos em combate.”

Não ocorreu aos colegas jornalistas consultarem a ONU e as forças armadas brasileiras.

O Globo oferece, em sua atual campanha de assinaturas, “informação exclusiva e confiável por menos de R$0,50 por semana”.

Na edição impressa conjunta dos dias 9, 10 e 11 de março de 2016 do jornal A Tribuna, que existe desde 1938 e estampa um “Aqui não tem Fake News” e alega que “Tudo muda e se transforma. Mas o lugar de buscar informação com qualidade e credibilidade desde 1938 continua o mesmo” na sua atual peça publicitária, Paulo Ney ganhou foto na capa e uma página de reportagem para alimentar suas fantasias em uma história intitulada “Um piloto sem fronteira”. Faltou dizer que a fronteira que falta ao piloto fica entre a ficção e a realidade.

À Tribuna, Paulo Ney afirmava ser “General Comandante do 5th Search/Rescue of Baghdad/Irak” (que não existe) há 10 anos prestando serviços como voluntário da ONU. Após sua demissão da VARIG teria começado a “voar em um monomotor pegando pessoas na África com Ebola”.

Segundo a instituição Médicos sem Fronteiras a primeira vez que o vírus Ebola surgiu foi em 1976, em surtos simultâneos em Nzara, no Sudão, e em Yambuku, na República Democrática do Congo, em uma região situada próximo do Rio Ebola, que dá nome à doença.

No entanto, o Surto de Ébola na África Ocidental foi uma epidemia que começou apenas em dezembro de 2013 na Guiné e se propagou em diversos países do oeste do continente africano, onde foram registradas as primeiras mortes por ebolavírus de forma epidêmica.

Relata ainda que trabalharia com apoio de bases norte-americanas e engenheiros treinados pela Marinha estadunidense. Além de contabilizar que teria sido atingido quatro vezes. Paulo Ney deve ter um fator de cura digno de histórias em quadrinhos pois enumera um tiro na cervical, um no pescoço e dois em coletes a prova de balas “modelo Obama”, além de um deslocamento de quadril e um quadro de coma de três dias após um carro bomba…

Segundo Paulo Ney, a “União Europeia” o teria presenteado com um automóvel Jaguar XE-S 3.0, avaliado em mais de 300 mil reais. O aviador vai longe: “modelo único no Brasil e montado especialmente pra mim como forma de agradecimento pelos serviços prestados na guerra”.

Segundo análise da revista Quatro Rodas de 16 de abril de 2015, este mesmo modelo chegaria às concessionárias brasileiras entre setembro e novembro de 2015.

Então a história colou e sete anos depois Paulo Ney ataca novamente, sempre escalando na sua magnitude fabulista: apresenta-se como celebridade humilde na televisão, entrevistado pelo programa Jornal do Rio da TV Band RJ em 8 de junho deste ano.

Em 2min e 52s de vídeo, Paulo Ney consegue o que sequer Jair Bolsonaro foi capaz: emplacar, nas palavras dele e nas da reportagem, uma mentira a cada 6 segundos. Ao todo são 28.

Sobrou até para o falecido Ricardo Boechat que não poderá sequer contradizer o fabulista dos ares. Você pode perceber que Paulo Ney gosta de chamar atenção dos pesos-pesados do jornalismo brasileiro, como ostenta em uma foto no seu facebook travestido de pugilista.

Paulo Ney em um das suas muitas fantasias

A âncora chama a matéria veiculada no dia 08 de junho desse ano: “E olha só, você vai conhecer agora a história do piloto mais antigo do mundo. Paulo Ney, 76 anos, ajudou a resgatar quase 11 mil pessoas na guerra do Iraque”.

Por incrível que pareça é aí o único momento que Paulo Ney parece oferecer a verdade: “primeiro que eu não sou herói, seria ridículo se eu tivesse essa pretensão.”, afirma a exemplar espécime da pós-verdade que parece não achar ridículo ludibriar e enganar as pessoas por três minutos de fama e meras 137 palavras impressas entre duas notinhas dentro de colunas de jornal.

A voz da repórter entra em cena (chamamos isso de off, no telejornalismo) e reforça a mitologia que Paulo Ney construiu para si e tenta vender para os outros: “A fala é do mesmo homem que ajudou a resgatar quase 11 mil pessoas na guerra do Iraque”.

A reportagem afirma que o General Paulo Ney teria comandado uma equipe de “23 militares da missão de março de 2003 da Organização das Nações Unidas”.

Paulo Ney, então, dá o tom dramático: “sem dormir, sem tomar banho, comendo ração”. Narra, ainda, quando teria sido vítima de um carro-bomba, no Iraque, e passado três dias em coma. É quase possível sentir pena das penúrias narradas pelo ator que merece um Oscar.

” Eh a cicatriz da operação pra retirada de um balin de granada Síria, contaminado por bactérias. Já operei 3 vezes. Não fecha em definitivo”.

Segundo esta reportagem, Paulo Ney seria o aviador mais antigo em atividade do mundo, mesmo se apresentando de óculos para a repórter. Fica difícil entender o que aconteceu ali. Ele é introduzido ao público como piloto e “General 4 estrelas da ONU”: o “posto máximo dentro do militarismo” com um sorriso de satisfação da repórter Marcelly Setúbal.

E, pasmem: é creditado como criador da “Força Aérea da ONU”. Que teria sido formada por um “batalhão de 86 pilotos e 4 mil pessoas de suporte” para fazer “todo tipo de serviço aéreo para a ONU no Oriente Médio”. A câmera mostra a imagem de um uniforme com as letras “UN” bordadas em azul, de “United Nations”.

Na reportagem dizem que Paulo se formou em “Aviação” aos 17 anos. No entanto, no seu perfil do Facebook ele alega ser formado em direito na Universidade Federal Fluminense. Questionada pela reportagem a UFF não retornou até a publicação desta matéria.

Nenhum dos veículos citados nesta reportagem, quando procurados e alertados sobre os erros, retornaram nosso contato e os conteúdos falsos seguem no ar sem nenhum tipo de aviso ao leitor. Sugerimos correção pública dos erros de acordo com o código de ética do jornalismo brasileiro que dispõe que ”a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação” e oferecemos o devido espaço para direito de resposta. Até o momento eles persistem nos erros.

Aliás seu perfil no Facebook é um universo particular. Ele se diz “Secretário Geral da ONU”, posa para fotos com uma boina preta com a insígnia das Nações Unidades – sendo que a oficial é azul. E apresenta-se com um crachá falso da instituição onde, ampliando, é possível notar 4 estrelas, o logotipo da ONU (em inglês UN), sua foto e a descrição “General de Silva”…

Segundo o Código Penal Brasileiro, em seu artigo 307 atribuir-se ou atribuir a terceiro falsa identidade para obter vantagem, em proveito próprio ou alheio, ou para causar dano a outrem incorre em crime de falsa identidade. A lei prevê detenção de três meses a um ano, ou multa, se o fato não constitui elemento de crime mais grave.

Já quando há adulteração de documentos com o objetivo de obter vantagem própria ou para prejudicar/beneficiar terceiros, há crime de falsidade ideológica com pena de reclusão de até cinco anos e  multa.

Guinness, ONU, EB e FAB desconhecem ancião

Acompanhe comigo: a ONU não possui forças armadas próprias, logo não existe o cargo de “General de 4 estrelas da ONU”, muito menos este seria o “posto máximo do militarismo” – em qualquer lugar do mundo…

Segundo o site da própria instituição:

A ONU não tem um exército permanente, nem uma força policial própria. Os militares dos estados membros das Nações Unidas que trabalham em missões de manutenção da paz são membros dos seus exércitos nacionais, destacados para trabalhar com a ONU. Os militares usam o uniforme nacional e são identificados como militares de manutenção da paz através de um capacete ou de uma boina azul da ONU.

Foto: ONU / Albert González Farran

Ou seja: para ser piloto da ONU em missões militares, Paulo Ney precisaria, obrigatoriamente, ser militar.

Já na hierarquia do exército brasileiro, que é a única força armada nacional que possui o posto de “General de Exército”, um general identificado por 4 estrelas, o “posto máximo do militarismo” seria um grau acima: marechal.

Você pode conferir a hierarquia da Marinha, Exército e Aeronáutica brasileira neste link.

Procurados pela reportagem, o Centro de Informação das Nações Unidas no Brasil informa que “as Nações Unidas não possuem Força Aérea”.

Em consulta ao Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil, que treina militares em missões de paz da ONU, “a última expedição da Força Aérea Brasileira em missões de paz com emprego de aeronaves aconteceu no Congo, na década de 70”, o que lança por terra a ficção de que Paulo Ney teria resgatado mais de 11 mil pessoas no Iraque em março de 2003 a serviço de uma força aérea da ONU que nunca existiu.

A saber: a guerra do Iraque começou oficialmente em 20 de março de 2003 contrariando recomendações da ONU na época, e durou até 18 de dezembro de 2011.  

O escritório brasileiro das Nações Unidas informa, por meio de nota, que irá comunicar o “Departamento de Segurança da ONU para as medidas necessárias”.

As assessorias de imprensa da Força Aérea Brasileira e do Exército Brasileiro, consultadas pela reportagem, esclarecem que o Brasil não participou da guerra do Iraque, que não há qualquer registro de “Paulo Ney De Castro Menezes Silva” na ativa ou reserva das respectivas forças armadas. E que não há qualquer registro de militar de brasileiro ferido por carro-bomba no Iraque, ou homenageado em Bagdá, visto que militares brasileiros não participaram desta guerra.

A aeronáutica informa, ainda, que a aeronave Galaxy C5-M só é operada pelas forças armadas norte-americanas. O Exército reforça que só possui aeronaves de asas rotativas (helicópteros) e que em seu quadro na ativa constam 19 Generais de Exército, sendo que nenhum deles se chama Paulo Ney ou pilota de aviões de carga, visto que o exército não os possui.

Ambas assessorias informam que um civil, obviamente, não poderia comandar uma equipe de militares e que para ingressar nas forças armadas ele precisaria prestar concurso e ter no máximo 23 anos. Em 1996, quando Paulo Ney foi demitido da Varig, ele já tinha 52.

Ernest Eli Smith pelo Desmoine Register

O livro dos recordes também não reconhece nenhum Paulo Ney como “piloto mais antigo do mundo”, mas atribui o recorde ao norte-americano Ernest Eli Smith, que nasceu em 21 de Dezembro de 1917 voou regularmente até os seus 98 anos e 114 dias. A revista eletrônica Plane and Pilot endossa a lista do Guinness.

Mas cuidado, Paulo Ney não gosta de mentirosos!

No dia 16 de março de 2010 ele seguia de carro com uma namorada em Niterói quando topou com sua antiga vítima de bicicleta – aquela que levou um tiro na perna. Eles teriam trocado insultos e a vítima fez uma denúncia falsa de que Ney estaria armado com um fuzil e disparando contra populares. Por causa disso, Paulo Ney, contrariando toda a lógica que supostamente lhe permite fabular, processou sua ex-vítima por “denunciação caluniosa”. Ou seja, por ter contado uma mentirinha por aí…

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