O pichador das alturas

Policiais militares foram chamados para deter um pichador que subia num prédio de 16 andares no centro de Porto Alegre, na madrugada do dia 21 de agosto de 2010. Ao chegarem ao local ele já tinha atingido o topo do edifício e descia deixando seus rastros.

Por Rafaela Ely e Tiago Lobo

 


Lak, aponta para sua obra / Foto: Rafaela Ely.

Prendemos o homem-aranha de Porto Alegre; o pegamos no décimo terceiro andar de um prédio!”, anuncia um policial militar no Palácio da Polícia. Ele foi um dos brigadianos que flagrou o pichador LAK?, de 18 anos, no sábado, 21 de agosto de 2010, às 4h35 escalando de mãos nuas dezesseis andares do Edifício Rua do Arvoredo, esquina Fernando Machado com Borges de Medeiros.

LAK?, assinatura que nem o autor sabe o significado, deixou a casa onde mora com o pai e a avó, no bairro São Lucas, em Viamão, para passear pela Cidade Baixa com amigos da Capital. Então a turma com cerca de dez jovens encontrou um conhecido que tinha algumas latas de tinta e queria “pegar um pico”, como os pichadores se referem aos alvos de seus ataques.

Eles se dirigiram até as imediações da Santa Casa para pichar um prédio de oito andares. O plano fracassou. O segurança percebeu o que os rapazes queriam e os expulsou dali. Na saída, em protesto, LAK? chutou um vidro. “Rasguei o dedo, o bagulho saiu sangue, daí eu amarrei a meia no meu pé.” Mas esse ferimento não estragaria a noite de delinqüências do pichador que se lembrou de um edifício que vinha estudando e disse aos amigos que fossem pra lá.

Não consegue parar

LAK? trabalha junto com o pai como gesseiro e também é chapeador. Parou de estudar na quinta série. Filho de pais separados, a família sabe que picha e soube de todas as vezes que foi flagrado. Não gostam, mas a mãe não fala nada e o pai diz que “se for pra pichar, então aproveita e rouba a tinta”. A avó odeia o envolvimento do neto nesse tipo de atividade, apesar disso, foi ela quem o buscou na delegacia na maioria das vezes.

Ele começou a pichar com quinze anos, por influência de amigos. No início, ele pichava por diversão, hoje picha por vício. O guri conta que com o passar do tempo ele começou a sentir a adrenalina da pichação e ficou viciado. “Eu não consigo parar, é mais forte do que eu, tá ligado?”.

Contudo, ele diz que anda parado. A namorada, com quem está junto há dois anos e meio, desconhece o vício do rapaz. LAK? acredita que ela seja uma das responsáveis por essa mudança. “Essa é de fé”, revela o pichador.

Só alegria

Durante aquela noite fria, os jovens bebiam vinho tinto, quase um litro por cabeça, e fumavam maconha. Cleber Maciel, o porteiro do prédio, conta que eles estavam alterados. “A rapaziada estava bebendo e gritando, e LAK? estava aí com a gurizada, batendo recordes”.

Cerca de cinco minutos depois da chegada ao prédio, imagens da câmera de segurança externa do condomínio mostram que o grupo caminhava para cima e para baixo naquele trecho do viaduto Otávio Rocha, arrumando o material necessário para o ataque. Às 3h50, munido com dois litros de tinta e um rolo dentro da mochila que levava às costas, LAK? escalou a lateral do edifício para deixar sua marca. “Nós vimos que o porteiro tava ratiando, aí foi só alegria!”

A ideia de LAK? era pichar o ponto mais alto do edifício: a casa da caixa d’água. “O bagulho é lá na altura”, exclama. Contudo, quando chegou ao último andar, deparou-se com um vidro na sacada que o impediu de continuar subindo. Subida essa que, para muitas pessoas, seria considerada impossível. Ele subiu pelas sacadas até o penúltimo andar, com o dedo cortado, e se gaba à reportagem: “Quando eu cheguei lá em cima, me senti o dono do mundo!”.

Quando eu
cheguei lá
em cima,
me senti o
dono do
mundo!

 

Arte de Leonel Domingos

A primeira letra foi feita do lado esquerdo da sacada. Então o pichador começou a descer. Para pichar, molhava um rolinho na tinta e escrevia, mas as coisas ficaram mais complicadas. Para pichar dos dois lados da sacada, era necessário caminhar sobre uma estreita viga: “eu tinha que botar um pé na janela e um pé no concreto, caminhar até a ponta, depois pular e ficar só no concreto, acocado com a mão na parede pra descer o rolinho. Essa foi à parte mais difícil.”.

Estar há quase cinqüenta metros do chão não assustou o guri. “Esse foi o terceiro de altura grave que eu fiz.” Para essa turma, “altura grave” são quinze andares ou mais. Menos que isso é fichinha. O recorde de LAK? é um edifício de trinta andares, o Coliseu, no centro da Capital. Apesar disso, esse foi mais fácil, pois LAK? acessou o prédio por dentro, em uma ação durante o dia. Ele revela que nessas situações, os pichadores vão na “cara-dura”. Inventam alguma história para o porteiro, se ele perguntar alguma coisa, entram no elevador e vão direto para o último andar. Quando chegam lá, arrombam as portas com um pé-de-cabra e cometem seus atos de vandalismo.

Não foram apenas os edifícios Rua do Arvoredo e Coliseu os alvos de LAK?. Dois prédios na Salgado Filho, um na Otávio Rocha, outro na José do Patrocínio, o Bar Opinião, a chaminé da Usina do Gasômetro, entre outros que também foram pichados por ele. O jovem não lembra exatamente quantas vezes foi preso, umas doze, acha. Em todas elas, foi detido e liberado depois. “Foram dez B.O.s de menor e dois de maior”, calcula.

Ele explica que a grande diferença do grafite para a pichação é que o grafite é legal. Há uma autorização do responsável pela propriedade para o uso artístico. A pichação não. Não importa o quão bonito ou feio é o resultado da obra, é vandalismo. “Se o cara pega tu aí pichando, tu toma cana.”

Caiu a casa

Uma guarnição da polícia parou na Borges à procura de LAK?. Ele estava no décimo quarto andar. Durante o tempo que os policiais estavam por perto, o pichador ficou abaixado para não ser visto. Quando eles foram embora, ele continuou pichando.

Mas seu anonimato não durou muito tempo. Em seguida chegaram duas viaturas: uma da Policial Civil e outra da Brigada Militar. A câmera de segurança do hall de entrada mostra dois policiais militares entrando no prédio às 4h24. Poucos minutos depois, o porteiro Cleber acompanha um deles no elevador até o sexto andar. Às 4h35, mais dois policiais foram de encontro ao pichador para efetuar a prisão.

LAK? estava deitado na sacada do sétimo andar. Quando foi verificar se os policiais tinham ido embora ele ouviu, do andar de baixo: “ô meu, desce que caiu a casa, pega teu material”. Ele tinha consigo a mochila com uma lata de tinta, que deixou no local, e segurava o rolinho quando disse: “ô, meu, tenho só o rolinho”. “Tá, então desce”, foi a ordem do PM. O pichador saiu algemado pelo apartamento 605, onde, segundo o porteiro, mora um grupo de jovens. Àquela hora, Cleber achou melhor deixar os moradores mais velhos em paz. Às 4h40 LAK? saiu algemado do prédio, acompanhado por quatro policiais. A ação da Brigada impediu que o garoto completasse seu nome. A letra K e o ponto de interrogação não foram feitos.

Para que suas pichações não sejam reconhecidas pela polícia, LAK? mente a sua tag (marca com o nome do pichador). Isso porque, em Viamão, o guri afirma só ter pichações do seu grupo. Ele toma a precaução de pichar apenas propriedades privadas. “O prédio da Borges é patrimônio privado, não é público. Se fosse público, eu tava fudido”.

Esse é o nosso esporte

“Eu gosto de altura! Nós somos um tipo de alpinista. Esse é o nosso esporte. Nós subimos lá e deixamos nossa marca”.

Ele diz que não picha para que as pessoas olhem e pensem que são apenas rabiscos. Ele picha para que as pessoas que conhecem esse universo admirem seu trabalho. “A pichação não se comunica com a sociedade, ela só se comunica entre a pichação”. E nesse arriscado processo, aquele que se sente “o dono do mundo” afirma que “o céu é o limite”.

 

Foto: arquivo pessoal

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