O perfil de Isadora Faber

Quando não está conectada na internet, aquela Isadora Faber tão agitadora no Facebook é muito tímida.

Por Renan Antunes de Oliveira

 


Ela vive como uma típica manezinha, como se diz de quem nasceu na Ilha de Santa Catarina, mas o pai sempre a lembra dos quase 400 anos de história do lado alemão da família, a mesma dos fabricantes de lápis.

A dinamarquesa Julie, tia-avó dela, já anotou o nome de Isadora na árvore genealógica dos Faber, iniciada com Carl Gottfried em 1620.

Kasper começou na Alemanha o negócio que deu fama ao nome, em 1761. Como só o filho mais velho de cada geração herdava a fábrica, dois Faber diferentes criaram seus próprios negócios usando também o nome da família, um nos Estados Unidos e outro no Brasil, na virada do século 20.

Johann Faber abriu sua fábrica em Campinas (SP) — e quem nunca teve um lápis com o nome dele só pode ser analfabeto. Johann era primo de Ejnar (pronuncie “ainar”), avô paterno de Isadora, dinamarquês de pais alemães.

Durante a Segunda Guerra Mundial as fábricas americana e brasileira foram tomadas dos donos germânicos. Na paz, elas acabaram compradas pela moderna Faber-Castell, hoje uma multinacional valendo R$ 2,5 bilhões.

O pai, Christian, só é brasileiro e gaúcho por acaso. Isadora tinha tudo para ter nascido fora — azar da Escola Básica Municipal Maria Tomázia Coelho, de Florianópolis, muito criticada no “Diário de Classe” da garota.

O vô Ejnar era um engenheiro agrônomo da ONU, casado com a paraguaia Rufina Antunez. Viajava pelo mundo ensinando técnicas de pasteurização de leite. Passou alguns anos em Pelotas (RS), onde teve Christian.

Ejnar morreu na África durante viagem de serviço. O pai de Isadora foi para o enterro na Dinamarca. Poderia ter ficado, mas a avó paraguaia gostou de Pelotas e voltou, abrasileirando o garoto — dona Rufina foi uma das vítimas do voo da Gol derrubado na Amazônia pelo jatinho Legacy, em 2006.

Christian casou com a estudante Mel Leal. O casal se mudou para Floripa em 1996. Além de Isa, eles têm as filhas Ingrid, de 24, formada em Computação, e Eduarda, de 16, aluna do Colégio Energia, uma das mais caras escolas privadas da cidade.

A Isadora caçula-celebridade-problema é do signo de Gêmeos. Fez 13 anos em 16 de junho.

A caçula “são duas”, corrige a mana Eduarda: “às vezes, ela é a Isa, mas também tem seu lado Dora” — Duda fala pelos cotovelos. Diz que um dos lados da irmã “é de poucas palavras” e o outro “é de dedos afiados”. Duda garante não invejar a fama recente da irmã — elas são as melhores amigas.

Como se sabe, foi Ingrid, hoje na Dinamarca, quem sugeriu que Isa fizesse o Diário, imitando a escocesa Martha Peyne, de nove anos, reclamona da comida de sua escola no primeiro mundo.

O Diário começou a ser publicado no Facebook em 11 de julho. Bombou em agosto, abalando o sistema de ensino da cidade com as denúncias de falta professor e fotos da porta do banheiro da escola sem fechadura.

Em setembro, quando Isa já tinha quase 200 mil seguidores, uma professora sentiu-se ofendida com as críticas e queixou-se à polícia.

Intimada a depor, Isadora saiu da delegacia com um up instantâneo no Diário — hoje ele está acima de 340 mil acessos.

Ficou assustada com a pressão ? “Não”. Pensou em parar de postar críticas no Face ? “Nunca”. Respostas curtinhas, bem no modo poucas palavras descrito por Duda.

Isadora continua com seus dedos afiados no laptop, agora um potente HP novo em folha, doado pelo jornalista Gilberto Dimenstein para premiar o exemplo dela de cidadania.

A rotina escolar de Isa não mudou, apesar da fama. Ela continua despertando sozinha pelo seu smartphone Samsung — o mesmo que usa para fotos do Face e para ouvir Beatles e Nirvana.

A Nokia não gostou de saber que ela usava o concorrente e mandou grátis seu último modelo de smarthphone: “É um presente pra ela tirar boas fotos”, disse um meloso relações públicas pelo telefone.

O quarto dela é uma bagunça. Está cheio de bugigangas obsoletas. Tem uma mesinha de laptop quebrada a uma TV CCE de 14 polegadas bem antiga — ela via muita MTV, antes de ser criticada em um programa.

Em cima do guarda-roupas estão dezenas de bichos de pelúcia aposentados, caixas com quebra-cabeças pra crianças até 8 anos e um baralho muito amassado.

Todos os dias, enquanto Isa se ajeita pra escola, a mãe dorme numa boa: “o horário é responsabilidade dela, tem que ser independente”, ensina Mel.

Ela invariavelmente veste jeans skinny, camisetas soltas e calça um de seus quatro pares de tênis All Star: “São cores diferentes”, diz, no dia em que usava o vermelho. Para a sessão de fotos a mãe a produziu com uma camisa vermelha de mangas curtas.

O estilo Isadora: pulseira de strass pesadona no fino braço esquerdo e dois anéis. Um bem fininho, outro grande, com uma caveira. Mais caveiras nos brincos dourados. Ela ama caveiras.

No pescoço, gargantilha negra e rosário branco com crucifixo — este de pura zoação, porque ela nunca reza, muito menos vai à missa.

A menina “às vezes” toma um copo de leite e sempre caminha 700 metros até a escola, mesmo com chuva: “minha mãe nunca me leva”, resmunga, apontando com nariz para o Mercedes Benz de Mel, no pátio.

A mãe se defende dizendo que “desde que começou o rolo” vai caminhando com a filha na escola, “só por precaução”.

Se ela só toma o tal copo de leite, vai fundo na merenda escolar ? Isa se solta e torce o nariz. Ela critica o rango pelo Face desde os primeiros posts.

A garota é magérrima. São apenas 38 quilos para seus 1m54. Adora os folhados de frango da padaria Princesa, na praia dos Ingleses, mas a fruta predileta explica a magreza: pitangas.

A mãe não está preocupada porque “é a genética dos Faber, o pai dela era assim quando jovem”.

Surpresa: ela gosta da escola. Isto porque “é a única que conheço desde a primeira série”. Está na sétima. Depois da oitava os pais prometem tirá-la da escola pública. Vai para o Energia de Duda.

Isa disse que a repercussão do site entre os colegas foi boa e que se sente bastante apoiada por eles — jura que gosta muito da tchurma.

“De quase todos”, ressalva a faladora Eduarda. “Depois do Diário, uma menina fofoqueira da oitava série disse que quer pegar ela. Já avisei que se tocar na Isa venho aqui e mato ela” diz a irmã protetora.

A mãe e a amiga e conselheira Joice da Rosa já pensam diferente. Mel acha que outros pais ficaram contra a filha e a favor da escola.

Joice é a patrulheira cibernética. Caça e responde com desaforos a qualquer mensagem contra Isadora — o inimigo da hora é um tal Formiga, de Curitiba. “Fico até as duas da manhã navegando e despejo minha fúria nele”, diz Joice

Isadora nunca botou fotos da própria casa no Face — se botasse, poderia começar pedindo aos pais para tirarem de lá três cachorros bagunceiros.

Ela não reclama porque um deles é o vira-latas Defé: “É o meu herói”, avisa, enquanto o acaricia.

Trata-se de um bicho de porte médio, pelagem cinzenta e meio aleijado. O nome significa que ele é “de fé”. Pouco pra ser o herói da heroína da internet ?

A história dele: há três anos Isadora foi atacada por dois pitbull na volta da escola. Magrinha e frágil, estava paralisada de terror, encurralada num beco. Foi quando Defé pulou no meio deles, lutou com os dois, dando tempo para a garotinha escapar ilesa. Ficou aleijado, mas virou xodó.

Isadora é uma garota de praia. A casa da família fica a 300m da água do Santinho (a 40 km do centro de Florianópolis), a mesma do resort badalado e frequentado por celebridades.

A casa tem de tudo, até piscina. Também vive lá a avó materna, portadora de uma doença degenerativa que exige cuidados. Isadora e as irmãs ajudam Mel. A tarefa de Isa é alimentar a senhora — o que faz com paciência e carinho.

De onde saiu a menina contestadora, polêmica, ousada e preocupada com os outros ? “Eu sou um pouco assim”, diz dona Mel. E conta uma história que acha “definidora” da filha.

Quando tinha 3 anos, Isadora viu a mãe servir água para os lixeiros no portão de casa. No outro dia, e por meses, a menina serviu água durante a coleta, correndo para receber o pessoal com uma garrafa geladinha.

“No Natal os lixeiros bateram na porta. Não era para pedir dinheiro, mas para dar uma boneca de presente para ela”, lembra dona Mel, emocionada com o gesto da filha e com a retribuição dos lixeiros.

Mel e Christian admitem que desde o depoimento na polícia estão corrigindo e censurando o material que ela publica. “Não queremos novos problemas” e “não dá para deixar as coisas soltas agora que tomaram esta dimensão” são os argumentos deles. Nos posts, nota-se até juridiquês.

Christian é um engenheiro agrônomo que trocou de ramo. Tem uma bem sucedida produtora de videos. Ele parece ressentido com a falta de retorno financeiro da aventura da filha: “jamais ganhou um tostão”. E avisa que “ainda não está cobrando nada para participar de eventos”.

Além do fone e do laptop, tudo o que ela ganhou foi uma bolsa num curso de inglês, na praia dos Ingleses. Quem a convida para alguma coisa fora de SC paga passagem e estadia também para alguém da família.

A mãe foi com ela ao momento maior de glória, o show da Band “Agora é Tarde”, de Danilo Gentili, no mês passado. Ela entrou no estúdio carregada no colo pelo apresentador. Com orgulho, Mel exibe aos visitantes o video daqueles 12 minutos de fama.

A família parece mais satisfeita com a celebridade do que Isadora. A menina é sem noção. Nem pisca quando alguém menciona os números do Face ou a repercussão na mídia.

A imagem dela já foi usada por políticos. O candidato do PSD César Souza Junior a usou no horário eleitoral da campanha à prefeitura de Florianópolis, para criticar o sistema de ensino defendido pelo adversário Gean Loureiro (PMDB).

O pai processou César e o PSD. A mãe reclama: “o pior é que nós votamos em Gean”. Ela quer a filha “fora de qualquer coisa com conotação política”.

O pai também processou a MTV, depois que uma apresentadora disse que Isadora era “dedo duro” e sugeriu pra ela “pegar no pinto dos meninos”. Os dois processos correm em segredo de Justiça.

A agenda dela a curto prazo inclui viagens para Salvador (BA), Pernambuco e São Paulo, mas os pais, superprotetores, fazem de tudo para não alterar a rotina escolar.

Ela disse que não dedica muito tempo para responder sua página: “Fico das sete até a hora da novela” — depois cama, até despertar pelo celular.

No sábado à tarde ela foi com a mãe e a irmã na mesma cabeleireira de sempre, a Kaká. Cortou apenas um pouco da franja e das pontas. Subiu o cabelo loiro que antes caía solto abaixo dos ombros.

Eles agora estão alinhados, emoldurando o rosto pequeno e delicado. Os olhos que a gente não vê direito nas telinhas da internet são meio cinzas, meio mel, meio esverdeados.

No fim da tarde ela fez um pedido irônico ao pai, postado na rede: disse que queria sair com ele para “procurar seu Francisco”. Conhecendo a filha e a história de Francisco, Christian nem saiu do quarto.

Seu Francisco trata-se do mítico pintor que já teria recebido pagamento para pintar a quadra da escola, mas que jamais apareceu. É o tema da hora no Face de Isa porque “a quadra esportiva tá uma porcaria”.

Ela acompanha as iniciativas de outros estudantes na internet. Dá um conselho sério para quem quiser fazer denúncias contra outras escolas: “Tem que ter certeza do que está escrevendo e usar fotos para comprovar”.

Ela vê seu Diário tipo jornalismo. Diz que quando crescer vai seguir a carreira — e o jornal que contratá-la que se cuide.

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