Jornalismo em Debate

“O importante é como você direciona o olhar”

O jornalista Wagner William, aos 50 anos, segue fascinado pela profissão em que deu os primeiros passos em 1986, como estagiário da TV Globo. Sua fala revelou, ao olhar atento, bem mais do que o tempo cronometrado de uma palestra lhe permitiu compartilhar, na noite desta terça-feira, a uma plateia de estudantes de jornalismo da faculdade de comunicação, artes e design da PUCRS, a Famecos.

Formado pela Cásper Líbero (SP), em 89, William acumula mais de 30 anos de carreira na televisão brasileira, como produtor, roteirista, redator, diretor e coordenador de redação. Passou pela Globo, SBT, Band e Record.

Mas foi entre a rotina atropelada do jornalismo diário que ele encontrou seu espaço nobre na produção de livros-reportagem, ao melhor estilo “novo jornalismo” de ser.

Até agora escreveu e lançou três, sendo duas biografias daquelas completas, que pesam no colo. Uma delas, o Soldado Absoluto, foi finalista em 2006 do Prêmio Jabuti – o mais tradicional prêmio literário do Brasil, concedido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL).

William abriu a palestra agradecendo a presença do neto mais velho de sua recém biografada Maria Thereza Goulart, Cristopher, e do presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), Jair Krischke. Na sequência lançou para a plateia a pergunta de ouro de um biógrafo:

“Por que uma pessoa merece ser biografada ou por que um fato merece ser contado?”

O jornalista-biógrafo se dispôs a respondê-la baseado no seu método de trabalho em que:

O importante é o olhar, como você direciona o olhar.

E tudo o que disse a partir daí funcionaria como um naipe de instrumentos ao trabalho orquestral de compor uma quase sinfonia escrita sobre uma personagem determinada. William defende que é preciso buscar uma história atraente, de um ator cheio de altos e baixos, “que não esteja em linha reta” e que “contar é contextualizar”.

Aquele que, em um primeiro olhar aparentava um homem quieto e de fala moderada, até tímido, foi se soltando na medida que as perguntas eram feitas pela plateia. Aí ficava clara a paixão pelo que faz: em alguns momentos, lembrando que falava para estudantes, se questionou se “eu deveria estar dizendo isso aqui”, mas arrancou algumas risadas com seu humor inesperado e suas tiradas de um “tá ok?” debochado.

O que parecia uma palestra, tornou-se uma aula. O jornalista sugeriu uma série de livros para os estudantes, inclusive para os que se interessarem em escrever biografias “que pode ser até do seu avô, se tiver uma história interessante”. Ele indicou a obra Usos e abusos da história oral (FGV) como um guia.

Fez referência a nomes como Gay Talese, Truman Capote e Tom Wolfe, buscando a precisão do repórter ao indicar que Lillian Ross foi a verdadeira criadora do “New Journalism”, ao contrário do que vendia Capote ao reivindicar o título*.

Lembrou da clássica reportagem “A milésima segunda noite da Avenida Paulista” de Joel Silveira e, empolgado ao citar a obra dos seus mestres, disse que depois que os alunos lerem “Crônica de uma morte anunciada”, de Gabriel García Márquez, não precisariam mais voltar para a faculdade. Os alunos e professores riram, tudo ganhou os ares da brincadeira e William se dedicou a demonstrar cada etapa do método que utiliza para construir o esqueleto de um livro, escolher as fontes, se relacionar com elas escrever as inúmeras versões do texto e checar os dados até a edição final.

Surpreende que uma figura com uma carreira que se impõe pelo tempo e empresas pelas quais passou demonstre tamanha empatia e vontade de ensinar. Wagner William é um jornalista veterano, mas humilde. Daqueles que não busca ofuscar com seu brilho, mas que quando se solta e começa a falar entrega todo o ouro para quem souber ouvir. Receita rara em um mercado tão competitivo e marcado pelo ego como o jornalismo brasileiro.

A ideia de biografar Maria Thereza Goulart, por exemplo, evidencia a importância do tal do “olhar”. William viu uma foto do histórico Comício da Central, em 13 de março de 1964, no Rio de Janeiro, quando milhares de brasileiros foram à Praça da República, em frente à estação Central do Brasil, para ouvir o discurso do Presidente João Goulart, e do governador do RS, Leonel Brizola. Entre os homens, uma mulher com um vestido azul chamava atenção. Era Maria Thereza que, após o exílio, foi ferozmente difamada pela imprensa e opositores da época. Essa foto fez nascer a dúvida sobre a figura dessa personagem que floresceu na biografia recém lançada.

Para entender melhor sobre esse olhar, é preciso ler as obras. Uma delas, a reportagem “O primeiro voo do Condor”, publicada na revista Brasileiros, e vencedora da 35ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo, em 2013, está disponível neste link.

Abaixo as capas e links para os livros do autor.

Olho no lance

  • Capa comum: 320 páginas
  • Editora: Best Seller (1 de abril de 2002)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 8571237727
  • ISBN-13: 978-8571237728
  • Dimensões do produto: 22,6 x 15 x 1,3 cm

 

O soldado absoluto – Uma biografia do Marechal Henrique Lott

  • Capa comum: 552 páginas
  • Editora: Record (18 de novembro de 2005)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 8501067814
  • ISBN-13: 978-8501067814
  • Dimensões do produto: 22,9 x 15,7 x 3,3 cm

 

Uma mulher vestida de silêncio: A biografia de Maria Thereza Goulart

 

  • Capa comum: 644 páginas
  • Editora: Record (8 de abril de 2019)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 8501114677
  • ISBN-13: 978-8501114679
  • Dimensões do produto: 22,8 x 15,2 x 4 cm

 

* Jornalismo em debate comenta:

Há controvérsias se admitirmos que no dia 31 de agosto de 1946 a revista The New Yorker inauguraria o fenômeno ao dedicar toda a sua edição para publicar “Hiroshima”, de John Hersey. A reportagem, que levou 17 dias para ser feita, no Japão, relatou o ataque atômico americano contra o país asiático na Segunda Guerra Mundial, por meio do relato de seis sobreviventes. Também lembremos que o reverenciado “Dez dias que abalaram o mundo”, do jornalista John Reed, foi publicado em 1919.

No entanto, a ideia de misturar jornalismo com literatura é encontrada muito tempo antes aqui no Brasil: o clássico
“Os Sertões”, de Euclides da Cunha, nada mais é do que um livro-reportagem datado de 1897. Em 1899 temos João do Rio. Em 1905 ganhamos o primeiro relato de Lima Barreto.

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