O futuro do jornalismo é mais folk do que neoliberal

Foto: Jean Lopes/Flickr

Folkcomunicação é um conceito cunhado por Luís Beltrão, o pai de todos os pesquisadores em comunicação deste país. Esta, considerada por muitos a única teoria genuinamente brasileira na área, busca compreender a comunicação de grupos sociais marginalizados social e culturalment18e, por muito tempo alijados dos meios de comunicação de massa, em suas iniciativas alternativas e formas próprias de comunicação. É tudo o que posso falar, em linhas bem gerais, sobre o termo do qual me aproprio apenas para pensar em voz alta sobre o futuro do jornalismo.

Por Taís Seibt

Publicado originalmente na Revista Trendr

 

 

Essa analogia folk é inspirada no congresso da Associação Latinoamericana de Investigadores em Comunicação (Alaic), do qual acabo de voltar, na Cidade do México. Fora o evento ter sido sediado pela Unidade Cuajimalpa da Universidad Autónoma Metropolitana, que fica em Santa Fe, uma espécie de distrito da capital mexicana, local caríssimo e pouco atrativo para se hospedar, além do difícil acesso para quem opta (como eu) por ficar na região central (duas horas num trânsito absurdo), fora o fato de haver apenas um restaurante no campus (o mesmo utilizado pelo público regular da universidade) e nenhum boteco na esquina (onde esse povo bebe cerveja depois da aula?), fora o fato de não haver computadores disponíveis para utilização do datashow (infraestrutura mínima de qualquer reunião de clube hoje em dia) nas salas dos grupos de trabalho… bem, fora outras coisas que não vale a pena comentar, mas apenas para registrar uma parte dos percalços organizativos do evento, a discussão no GT Estudios de Periodismo rendeu.

Ouvir outros colegas falarem sobre o que estão pesquisando sempre lança novas perguntas para a nossa pesquisa. Foi o caso no México. Estou tentando compreender o fenômeno jornalístico contemporâneo a partir de uma noção de paradigma trabalhada por Brin, Charron e Bonville, neste cenário de crise das empresas de comunicação, as quais deram o modelo (paradigma) do que entendemos por jornalismo ao longo do século XX, tanto no modelo de negócio quanto na prática profissional.

Até a minha geração, o jornalista era basicamente um trabalhador assalariado, que produzia conteúdo com uma linguagem própria, seguindo determinados processos, regidos por princípios éticos ligados ao interesse público e à liberdade de expressão. É claro que nas redações alguns assuntos ganham este ou aquele contorno conforme a linha editorial, mas isso é coisa para o patrão decidir, não o repórter. O conflito de classes dentro de uma redação tem lá suas desproporcionalidades, mas é importante essa distinção entre o cara que apura, investiga e escreve, e o cara que fecha os contratos com seus anunciantes ou presta contas a seus investidores.

O que acontece quando o jornalista se torna empreendedor?

Na esteira do neoliberalismo, jornalistas postos no mercado às pencas, graças a sucessivos cortes nas redações, são fortemente incentivados pelo próprio mercado a “empreender”. Atraídos pela virtual possibilidade de trabalhar de pantufa, sem horário fixo (mas também sem garantias trabalhistas e amparo jurídico, por exemplo), cada vez mais jornalistas viram PêJota para prestar serviços àquelas mesmas empresas que estão demitindo muita gente.

E #comofaz para manter intactos aqueles princípios de direito à informação e interesse público quando a grana para você pagar as contas no fim do mês depende de interesses privados?

Alguns colegas que estão empreendendo no ramo me contaram que admitem fazer trabalhos “menos jornalísticos” para ganhar dinheiro suficiente para manter o negócio e com isso financiar outros projetos “mais jornalísticos”. Tem também vários colegas empreendedores que estão trabalhando mais do que em plantão de domingo de eleição para conseguir pagar as contas… mas empreender não deixa de ser uma opção. Será opção para todos? Temos aí uma mudança de paradigma, como no século XIX, quando os jornalistas escritores diziam que o lide (aquele parágrafo inicial básico que abre uma matéria) tinha estragado o texto jornalístico? Até que ponto o modelo de negócio impacta ou integra o próprio paradigma jornalístico? Perguntas…

Numa espécie de GT reduzido, formado com mais duas colegas que estavam hospedadas comigo por lá, a conversa em torno desses temas se estendeu pelas duas horas de trajeto após o encontro, a bordo de um Uber rumo a um apartamento alugado via Airbnb (nada mais colaborativo e neoliberal ao mesmo tempo). Concluímos que apesar da crise dos gigantes, o momento é positivo para os pequenos, como jornais de bairro ou de cidades pequenas, porque elas têm o principal: laços fortes com a comunidade.

Levantamentos preliminares sobre novas iniciativas jornalísticas, de empreendimentos individuais a ações coletivas, mostram que quanto mais próximos da região geográfica onde estão inseridas ou da “tribo” cultural que pretendem representar, mais engajamento — e sustentabilidade — têm esses projetos. É por isso que imagino o futuro do jornalismo antes folk do que neoliberal. Pode ser as duas coisas? Talvez. Preciso averiguar com Beltrão.

Há indícios de que o próprio mercado aponta para um jornalismo mais próximo da comunidade. Em uma entrevista recente à Folha de S. Paulo, o editor-executivo do Washington PostMartin Baron, comentou que estar dentro das comunidades e reagir mais rapidamente aos fatos seria mais valioso do que o olhar estrangeiro de um correspondente (será por isso que o Post abriu uma plataforma para formar uma rede internacional de frilas?). Na terrinha, o maior jornal de Porto Alegre mudou de slogan há pouco tempo: “Perto para entender. Junto para transformar.” (se quer transformar, então está engajado?). Dúvidas…

E segue a busca por um caminho, assim na pesquisa como na profissão.

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