Jornalismo: o templo da subjetividade

Arte de Uilian Gomes

Costumo dizer que uma grande reportagem pode estar do outro lado do mundo. Ou da rua. Quase nunca é fácil. Em um tempo em que cada vez mais o público escolhe o que deseja ler, nosso desafio é tocar o seu coração.

Por Rodrigo Lopes

 


Haiti, janeiro de 2010

“Ao cruzarmos o portão, havia haitianos pelo chão, enfaixados, com os rostos cobertos, membros amputados, gritos de desespero. Até aquele momento, julgava que o visor da câmera me mantinha um tanto afastado do sofrimento. Em situações anteriores, servira quase como um filtro para o horror. Mas, naquele dia, não consegui dar mais do que 20 passos dentro do hospital. Nem mesmo ao olhar a dor pela lente da câmera. Além das cenas fortes, havia o risco de epidemias. Voltei ao carro. Martineau, que até então nos guiava pelas ruas tomadas por prédios desabados, com rapidez, segurança e um aparente distanciamento, entrou no carro também.

— Meu Jesus! — disse.

— Tá difícil — suspirei em direção a Miguel, que havia ficado no veículo, com o ar-condicionado ligado.

— Jornalista aguenta tudo — ele respondeu. — Se até vocês não estão aguentando, é porque a coisa tá muito feia, meu Deus — prosseguiu.

Não aguentamos tudo, pensei, mas não falei. Respirei fundo.

Alvorada, março de 2011

De cima de um caminhão de lixo, compartilho alguns minutos da rotina dos lixeiros que conquistam o pão de cada dia com dignidade, correndo mais de 30 quilômetros entre calçadas esburacadas, esquecidas pelo poder público, e cidadãos mal-educados, que jogam dejetos nas ruas ou despejam cacos de vidro em um saco de lixo, sem nenhuma preocupação com quem irá recolhê-los. Tento acompanhar o ritmo dos coletores de Alvorada, cidade de 195 mil habitantes, na Região Metropolitana de Porto Alegre: pulo com o caminhão em movimento, corro, enfio o braço direito no fundo de uma lixeira. Da sacola plástica branca, que um dia embalou compras de supermercado, escorre um líquido fétido que sai pingando em meu trajeto até de volta ao caminhão. Corro, pulo, quase bato com a canela no para-choque de ferro do veículo. Estou ofegante. Minha vida sedentária cobra seu preço diante daqueles verdadeiros maratonistas, que hoje tenho a honra de dividir a caçamba. De volta ao caminhão, quando meus pulmões puxam o ar para aliviar o cansaço, o que vem é o fedor. Seguro o vômito para não passar vexame.

Costumo dizer que uma grande reportagem pode estar do outro lado do mundo. Ou da rua. Quase nunca é fácil. Na guerra, para onde você olha, os fatos acontecem, brotam do chão. Mais difícil é extrair do dia-a-dia do buraco de rua aquele texto que vai mudar as vidas não apenas daquelas pessoas retratadas nas páginas do jornal, nas imagens da TV, nas ondas do rádio ou nos algoritmos da internet. Vai mudar também quem as assiste, as lê, as ouve, as clica. Mais: vai mudar a nós próprios. Como profissionais e, principalmente, como seres humanos. Em um tempo em que cada vez mais o público escolhe o que deseja ler, nosso desafio é tocar o seu coração. Com a reportagem sobre o terremoto no Haiti toquei a vida de milhares de leitores de Zero Hora, acordados para a tragédia que parecia distante. Com a reportagem sobre os lixeiros de Alvorada, sacodi telespectadores da RBS TV que os ignoravam.

Há anos não acredito
em jornalismo objetivo,
cujos textos, assépticos,
não são mais do que
meros relatórios
de nomes ou
amontoados
de números

Há anos não acredito em jornalismo objetivo, cujos textos, assépticos, não são mais do que meros relatórios de nomes ou amontoados de números. Prefiro vida real. É difícil acreditar em repórter que volta à Redação após uma cobertura longa e difícil com os sapatos limpos e a camisa branca impecável. Jornalismo é, já dizia Gay Talese, a arte de sujar os sapatos. Com todo o respeito ao mestre, eu diria mais: Jornalismo é a arte de amarrotar roupas, de cheirar o cheiro, de ver as cores, de conversar, de viver. É também arte de ter medo.

New Orleans, agosto de 2005.

“Em toda a cobertura internacional, quando algo dá errado, em algum momento você se pergunta: “Afinal, o que, diabos, eu estou fazendo aqui?” É a hora da impotência, da insegurança, que você lembra que poderia ter escolhido outra profissão e naquela madrugada estar em uma cama quentinha, abraçado à sua mulher, com os filhos no quarto ao lado. O pior é que, àquela hora, na margem da US-51, a dúvida vinha acompanhada de um cheiro de umidade misturado ao de corpos em decomposição. Não havia mais vento, o que tornava a noite mais abafada. O silêncio era quebrado apenas pelo zumbido dos mosquitos. Dormir? Nem pensar. Naquela noite escura, insone, isolado do mundo, às portas de New Orleans, fiquei com meus pensamentos — e meus fantasmas.”

Senti medo. Desde aquela experiência, passei a não acreditar em jornalista que propaga aos quatro ventos que não tem medo. Ora, o medo é o freio da adrenalina, é o ingrediente, nessa profusão de sensações durante uma reportagem, que te impede de dar um passo além, de pisar em uma mina terrestre, de explodir. O medo é quem te garante voltar de um dia no front, tomar um banho quente, sentar na frente do computador e contar, para milhares de leitores, distantes dali, a História. Porque jornalista é enviado para contar uma história. Jornalista não foi feito para morrer ou ser preso, embora, não obstante, cada vez mais profissionais da imprensa sejam alvo dos desmandos de ditadores e ditaduras que insistem em punir o emissário.

Se a situação já está tão difícil para o exercício do jornalismo independente, o profissional em campo precisa se precaver ao máximo — e ter medo.

Norte de Israel, agosto de 2006

“Basta o Merkava avançar montanha acima para que a terra trema. Um foguete explode a cerca de um quilômetro da estrada onde estou. O chão treme. Os joelhos tremem. Sinto vontade de deitar no chão, como se isso diminuísse a chance de eu ser atingido.”

Eu poderia ter contado esta história sem dizer o que senti? Poderia — e seria, talvez, o mais aceitável. Mas, ora, o jornalismo é o templo da subjetividade. Narrar os fatos apenas, de forma objetiva, seria privar o leitor de metade da história. Diante do que vi e vivi, por que furtar do leitor do sentimento? Algumas vezes, chorei. Como no episódio do resgate dos 33 mineiros que renasceram das profundezas do Atacama.

Copiapó, outubro de 2010.

“Parei ao lado do sino e encerrei o boletim. Então, virei a câmera para mim, já fora do ar.

— A gente, que acompanhou tudo de perto, se emociona a ver que terminou. Os 33 mineiros saem com vida, saem felizes para junto de seus queridos.

O final da frase é quase inaudível. Eu também chorava.”

Costumo dizer que, na guerra, o ser humano se revela por inteiro. Naquilo que tem de pior —  em um conflito, há violações de direitos humanos, ataques indiscriminados contra a população civil, o homem lobo do próprio homem. Mas é também diante da guerra que o ser humano se revela no que tem de melhor. Infinitas vezes, testemunhei cenas de solidariedade em meio ao horror. Entre vítimas e entre os próprios colegas, como ocorreu em Pisco, a cidade devastada pelo terremoto que atingiu o Peru em 2007. Corríamos, o fotógrafo David e eu, atrás de uma multidão implorando por comida despejada por um caminhão.

“David entra no carro. Tenta dar a ignição, mas desaba em choro. A visão de um menino abraçado a um pacote de arroz o fez lembrar de seus filhos. David é abraçado pelos colegas. Sem saber o que fazer, como consolar o colega, aperto seu ombro.”

Todos choramos. É preciso deixar as portas da percepção abertas ou, melhor, escancaradas para a realidade. E, quando a linguagem falta para descrever o horror ou o sublime sentimento, deixe rolar as sensações: as cores, os sons. Se algo nos tocou, certamente tocará o nosso leitor. Todo Jornalista, ao menos os com “J” maiúsculo, acredita que escolheu esta profissão para mudar o mundo. Talvez não o mudaremos, mas, em alguns momentos, conseguiremos alfinetá-lo, chacoalhá-lo. E isso só faremos transportando, por meio de nossas narrativas, o leitor para dentro do cenário em que estamos. Aprendi com um experiente editor que, em situações distantes, devemos adotar o olhar do “ET”. Imagine se um ET pousasse hoje na Terra. Praticamente tudo, para ele, seria surpreendente, novo, inacreditável… O olhar cansado muitas vezes nos trai. E, não se engane, até na guerra há rotina. Todos os dias, em meio aos bombardeios, as pessoas acordam, escovam os dentes, vão trabalhar, estudar, almoçam, jantam. O que nos diferencia é o olhar do ET. É esse olhar que nos ajuda a transportar o leitor para a cena do fato. É o que torna o leitor nosso companheiro de jornada.

“Depositado sobre o painel do carro, o celular de Miguel não para de tocar. Há apenas 30 minutos, a porteira enferrujada que divide a Isla Hispañiola entre a República Dominicana e o Haiti ficara para trás. Silêncio no carro. Mentes em turbilhão. A última cena do país devastado pelo terremoto ainda martela: mulheres esfarrapadas, magérrimas, tentando driblar os policiais, agarrando-se ao nosso carro, em uma tentativa vã, desesperada, de fugir do horror. O portão se fechara. As mulheres, empurradas para trás a golpes de cassetetes, eram jogadas de volta ao seu país. Ou ao que sobrou dele. Elas ficaram. Nós, os eleitos, passamos.”

Uma grande história, repito, pode estar do outro lado do mundo. Ou da rua. É o repórter que a transforma em uma grande reportagem. Antes de encerrar, uma palavra a mais: em um mundo de incertezas sobre o futuro do jornalismo, me agarro com todas as forças ao texto. Bom texto é bom em qualquer mídia. Da folha de guardanapo ao iPad. Texto ruim, é texto ruim. Em qualquer plataforma. O importante é a história. O ser humano por trás da notícia. E este, não se engane, dificilmente você vai encontrar na tela do computador. Requer olho no olho, horas de conversa, química… Não há grandes histórias no quarto de um hotel. Em Porto Alegre, Benghazi ou Bagdá. Os melhores relatos também não estão no ambiente rarefeito das Redações. Ainda é necessário sujar os sapatos. A vida, caro leitor, está lá fora.

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