Jornalismo e as folhas outonais

Recebi mil palavras para contar uma história para vocês. E até aqui, podem conferir, já gastei dezesseis. A metade do tempo médio, em minutos, que dura um cigarro, ou meu copo de Whisky. São dezesseis palavras e uns oito minutos que retratam um período intrínseco da reportagem.

Por Tiago Lobo

Publicado originalmente na edição 22 do Brasil Observer, em Londres.

 


Acompanhe: escrever duas frases não tomam mais do que a metade do tempo acima. É simples. Por vezes automático. Mas pensar em como escrevê-las quando se pretende contar uma boa história leva muito mais tempo do que o leitor possa imaginar. Como o jornalismo é uma espécie de “quase literatura feita com pressa”, e tem o péssimo costume de ceder a pressões industriais, torna-se frio e efêmero. Tão passageiro quanto uma folha despercebida pegando carona no vento do outono. Quando isso acontece deixa-se de contar uma história e oferece-se ao leitor um relatório burocrático e natimorto. Deixa-se de perceber a beleza, o sutil e o não dito da atmosfera daquele ser que não mais receberá o alimento da árvore que o gerou. E a folha se desprende. Sem vida, em um voo poético de encontro à morte.

A árvore, que sacrifica suas belas criaturas em prol da sobrevivência, pois precisa economizar energia, poderia emprestar sua poesia para uma reportagem sobre sustentabilidade. Como uma perfeita analogia sobre a maior preocupação do homo-sapiens no século XXI.

E se alguém possui dúvidas sobre isso, basta procurar os textos do jornalista norte-americano, Joseph Mitchell, que resolveu contar a história de um pica-pau martelando o tronco de uma árvore. Ela caiu e a reportagem de Mitchell tornou-se uma peça jornalística clássica e imortal, eternizada nas páginas da New Yorker.

É o pensamento, e o tempo dedicado a ele, que torna um jornalista capaz de quebrar as barreiras desta literatura feita com pressa. Fugir da pressão do tempo e do espaço, e criar uma peça jornalística em sua essência. É assim que se atinge a nobreza da reportagem. Dessa forma, se garante o dom da permanência a uma história. Todo este processo é pautado por um ímpeto bárdico de contar e compartilhar fatos sobre a história humana. É a alma do homem da imprensa.

Quando se fala em jornalismo, hoje em dia, sinto pessoas pensando no consumo imediato de notícias. Um verdadeiro fast food caótico de informações mal verificadas, desencontradas e levianas. Aqui, sou obrigado, a título de honra, a lembrar de Spyros Makridakis, um guru da administração que faria muito bem à imprensa. Ele defende, em um dos seus textos, que crescemos em uma cultura onde aceitamos determinadas afirmações como verdade, embora elas possam não ser. Uma delas é de que quanto mais informação tivermos, mais precisas serão nossas decisões. Segundo Makridakis, sob uma ótica empírica, as informações disponíveis em geral são redundantes e oferecem pouco valor adicional.

Se analisarmos o jornalismo brasileiro, ele tem sua razão. E é surpreendentemente fácil imaginar os principais jornais diários do país tornando-se o mesmo veículo, em termos de conteúdo. Afinal, as manchetes são as mesmas, as notícias se repetem e são tratadas da mesma forma. O que muda é algum destaque regional.

Então, pergunto: seu tempo é mais bem investido consumindo várias reportagens feitas com pressa, meias notícias, ou focando em reportagens que vão lhe explicar, com análise e profundidade, os fatos que lhe interessam?

É muito comum jornalistas pensarem. O problema é que eles pensam que entendem. Pensam que sabem. E vão morrer acreditando que compreendem o que você, leitor, quer ler. E pior: como você quer ler.

Já tem alguns que juram que descobriram que vocês não querem ler, mas apenas ver. Aí pulam infográficos, cores, fotos que não precisavam ter aquela dimensão e dados, como relatórios e balanços financeiros, que transformam a vida humana em estatísticas gélidas.

Estou convicto de que nós, jornalistas, não sabemos nada. Ou, sendo generoso, muito menos do que acreditamos saber. Até podemos ter uma ideia, chegar perto do que você espera, mas é a utópica cauda longa do contador de histórias. E essa ciência da dúvida é um combustível potente para alimentar a qualidade do nosso trabalho.

Talvez, por essa arrogância disfarçada de expertise bon vivant, que o jornalismo viva o seu mais intenso outono. A cada segundo, na rua, onde é lugar de repórter, aquelas folhas despencam sobre os olhos das pessoas, tentando ser vistas, ouvidas e respeitadas. Os jornalistas, dentro das suas redações refrigeradas, estão cegos para a poesia da vida e reproduzem a atmosfera morta e sem brilho dos seus escritórios digitais. Tentam traduzi-las através de pulsos elétricos e códigos binários. Vivem empoleirados no telefone e grudados com os olhos no computador – sua janela artificial para a vida humana. Pode ser por isso que temas extremos como assassinato, pobreza, corrupção, desastres e a vida em sociedade sejam tidos como clichês tão banais.

A individualidade dos fatos, sua atmosfera, e a própria individualidade humana sempre irá procurar a lufada de vento para navegar pelo mundo. Cabe aos jornalistas prestarem mais atenção. O escritor argentino Mempo Giardineli dizia que “as pessoas jamais deixarão de se interessar por histórias bem contadas”. Que os jornalistas entendam isso antes do próximo inverno.

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