Internet fixa limitada, comunicação digital e democratização das mídias

Foto: Karolina Grabowska.STAFFAGE/Pexels

Com tanta coisa acontecendo em Brasília, a decisão da Anatel de permitir que operadoras limitem o acesso à internet fixa no país poderia até passar batida na pauta. Só que não. Derrubem a presidência da República, mas não a minha conexão! Estou exagerando (espero), mas é mais ou menos por aí. Afinal, sem internet à vontade, até as mais polarizadas discussões que movimentam nossas timelines ultimamente correm risco de restrição.

Por Taís Seibt

Publicado originalmente na Revista Trendr

 

Há pouco mais de um ano fora do jornalismo diário, por questões de pesquisa acadêmica, no doutorado em Comunicação, e de experiência docente, dando aulas na graduação, tenho me debruçado mais criticamente sobre a internet no Brasil. Quando trabalhava na chamada grande mídia, via com certa naturalidade a inspiração em modelos norte-americanos e europeus. Um repórter das antigas costumava dizer que fazíamos um jornal de província como se estivéssemos no primeiro mundo. Há sentido nessa crítica.

Acontece que nós — eu e você, sim, porque se eu estou publicando este texto na internet e você está lendo, é porque eu e você estamos online, portanto fazemos parte disso — enfim, acontece que nós aqui que estamos revoltados contra a limitação da internet fixa (com razão, diga-se) fazemos parte de um grupo de 85,6 milhões de compatriotas, segundo o IBGE. Só que somos 200,4 milhões brasileiros no total. Entendeu a proporção? E não vale descontar crianças, porque eu sei que você, assim como eu, tem um sobrinho, filho ou qualquer bebê por perto que aprendeu a mexer no touch screen do smartphone antes de pronunciar o primeiro R corretamente.

A verdade é que mais da metade da população brasileira não tem acesso à internet.

Há outras verdades que precisam ser ditas. Um milhão de brasileiros não têm energia elétrica. Isso mesmo, em pleno século XXI, um milhão de pessoas não pode sequer ligar um computador (?) na tomada — nem abrir a geladeira para servir um copo de água gelada. Ah, cerca de 35 milhões também não têm água tratada em casa. E quase metade dos brasileiros sobrevive com até um salário mínimo. Só para citar algumas verdades sobre o nosso país.

Agora imagine se, para nós, eu e você, que estamos aqui, conectados, vai ser difícil manter certos padrões de conexão, porque as franquias se tornarão absurdamente caras, quais as chances de o acesso a padrões mínimos de conexão se popularizar no Brasil?

Em termos práticos, caso você assista três horas de vídeo online em HD ao dia, será preciso contratar uma franquia de 300GB, a um custo superior a R$ 300. Isso considerando que você more sozinho. Do contrário, você ainda terá de dividir essa cota com marido e filhos. Vou me apropriar da relação muito bem colocada por uma aluna em sala de aula: o salário mínimo nacional é R$ 880, ou seja, o custo da franquia máxima de internet representaria em torno de 34% do salário mínimo. Lembre-se que metade da população tem renda até esse valor e mais da metade da população está offline…

Você pode indicar que esse cidadão compre a menor franquia ofertada, 10GB, a um custo aproximado de R$ 29,90. Na média de consumo de 1GB para cada hora de vídeo em HD, esse cidadão teria direito a algo em torno de 20 minutos de vídeo online ao dia.

O que pretendo aqui é lançar outro olhar sobre o discurso a favor da tal “democratização das mídias”. Parece que é preciso, primeiro, discutir o que entendemos por “democratizar”.

E a nossa revolta contra o sistema de franquias que estão querendo nos impor pode nos inspirar a uma compreensão mais ampla da questão, afinal a matemática é clara — e o mercado é perverso. O sistema de franquias estabelece mais um corte social, pelo viés econômico.

Soma-se a isso a dificuldade de viabilizar economicamente negócios de comunicação digital, que dependem de assinaturas. Pagando mais caro pelo acesso, o peso de mais mensalidades a pagar torna-se ainda maior ou pode até perder o sentido: se a franquia que couber no bolso for muito pequena, nem justificará o investimento em certos serviços online.

Não que a estratificação econômica já não estivesse posta na internet, mas certamente ela fica mais exposta com a mudança no sistema de cobrança. É o famoso “passo atrás”.

Considero mais do que necessário que nós, eu e você, os conectados, assinemos petições, manifestemos insatisfação, tomemos as medidas que estão ao nosso alcance para pressionar contra a limitação da internet fixa — por mais que a gente saiba quem realmente tem poder nessa discussão. Porém não só pelas contas que nós pagamos. Também por melhores perspectivas para que aqueles outros 114 milhões de brasileiros possam vir a fazer parte da nossa rede. Esta rede que consideramos livre (?) e democrática.

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