Há 11 anos caía um Asteroide na Feira do Livro

A explosão foi tamanha e a cratera tão funda que resultou em um projeto social que aproxima crianças de rua de uma vida mais digna: criado pela jornalista Sônia Zanchetta, em 2000, o Asteroide busca a integração entre a comunidade e os garotos de rua que frequentam a Praça da Alfândega, durante a Feira do Livro.

Por Tiago Lobo

 


O jovem A., 15 anos, foi acolhido no Asteroide em 2004, quando seu irmão mais velho, de 32, apresentou-lhe o projeto. Em 2009, saiu de casa porque brigou com o padrasto que bebia e batia na mãe. Foi morar na rua. O garoto tem dez irmãos e passou um ano na sarjeta, até ser encontrado por assistentes sociais do “Ação Rua”, projeto da Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC) que resgata menores em situação de risco. Entenda-se risco por jovens abandonados, usuários de drogas, vítimas de abuso, maus tratos e exploração. Ele foi, então, direcionado para a Escola Municipal de Porto Alegre (EPA), criada em 1995 com o apoio do Albergue Municipal onde faz a 4ª e 5ª série do Ensino Fundamental e já tirou até um curso de padeiro.

Esta história se repete com LNS, de 18 anos, que hoje cursa a 7ª e 8ª série na EPA, pelo Núcleo de Educação para Jovens e Adultos — o popular Supletivo. O garoto negro de boné branco, camiseta vermelha e olhos atentos foi vítima do tráfico. Defendia uma boca quando, numa troca de tiros, levou uma bala na coluna. Resultado? Está em uma cadeira de rodas. No entanto, isso não o impede de jogar basquete e dizer, com os olhos brilhando: “Sou feliz e nada vai me parar”. Ele garante que abandonou as drogas e agora só quer “estudar e alegria”.

Este também era o desejo de Glauber Fernando Meireles Naguatini, 23 anos, morador de rua que foi atingido pela força do Asteroide há 10. Ele fazia o tipo brincalhão, quando o conheci, em 2010, carregava seu pandeiro e não se intimidou quando lhe pedi uma palinha. Vestia a camiseta do projeto, orgulhoso, e dizia: “Esse projeto é tudo para mim; com essa camiseta podemos andar na Feira que vão saber de onde somos”. Neste ano Glauber não participou do Asteroide, conseguiu emprego na Cootravipa e ficou sem tempo.

Mas não foi só ele que se afastou do projeto. Quando cheguei ao espaço, na quarta, 08, às 15h e 45min, não achei ninguém. Estava lá apenas o assistente social Luis Felipe Melo Balhego, 25, que me recebeu e contou que dois jovens de 9 e 12 anos estavam passeando pela Feira, e seriam encaminhados para um abrigo. Balhego explica que a maioria dos garotos atendidos pelo projeto possuem um histórico de violência doméstica, que os faz adotar a rua como casa.

Explicou, também, que o Asteroide é mantido por uma rede de organizações que articulam ações de atendimento para jovens em situação de risco, como acompanhamento psicológico e encaminhamento para abrigos e escolas.

Saí de lá dizendo que retornaria no dia seguinte, e assim o fiz.

Para minha surpresa encontrei, na quinta, 09, às 15h e 06min, 23 jovens, 2 monitores e 3 professoras da EPA, e ainda um voluntário que ensinava artesanato para os meninos, atentos.

Tinha até uma escultura de dragão feita pelos garotos e garotas do projeto. A ideia surgiu de uma estatueta feita por Paulo Gilberto, de 19 anos. Os colegas se encantaram e as professoras resolveram fazer uma escultura coletiva da figura mitológica, representando a efemeridade da vida, um conceito trabalhado no projeto.

O fato é que não estiveram presentes 20 jovens a cada dia do Asteroide em seus primeiros 12 dias de funcionamento. A professora Bernardete Simon, 50, que dá aulas de Educação Física na EPA e já participou de outras edições do Asteroide, atribui essa diminuição do público a uma mudança na rua.

Mesmo assim Wilson Fernando da Silva Ribeiro, 24 anos, trabalha como monitor no projeto. Ele veio da EPA e seu objetivo de vida é integrar a equipe do “Ação Rua”. “Quero tirar a gurizada da rua, eles merecem”, declara, determinado.

Quero tirar

a gurizada

da rua, eles 

merecem

O Asteroide funciona como atividade complementar para os alunos da EPA e jovens do Lar Dom Bosco e oferece diversas atividades, oficinas, palestras, café da manhã, almoço, lanche e um espaço onde eles podem tomar banho

Sua coordenação fica por conta da diretora da EPA, Maria Beatriz Osório Stumpf, 49, que assumiu este ano. A opinião de Maria Beatriz sobre a diminuição de participantes do projeto é que muitos jovens estão inseridos em cursos, outros ficaram mais velhos e trabalham. “Infelizmente ainda existe o aumento da drogadição, mas é um dado empírico”.

Quando pergunto sobre quais políticas são desenvolvidas para atrair os meninos de rua a coordenadora do projeto explica que o Asteroide “Não é uma busca da gurizada, é um acesso à gurizada”.

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