Expedição literária na terceira idade

Oito senhoras, com idades variando de 60 a 78 anos, embarcaram em um ônibus e desceram na Feira do Livro no dia 08 de novembro de 2011, como todo mundo faz — a diferença é que elas estão em processo de alfabetização e pisaram pela primeira vez na maior feira literária do sul do Brasil.

Por Tiago Lobo

 



Guiadas pelas voluntárias Maria de Lourdes Fernandes Dutra Vila, 68 anos, e Ana Maria Azambuja, de 63, o grupo saiu em busca de livros acessíveis, tanto na linguagem como no preço, pois naquele dia, aquelas senhoras ganhariam seu primeiro livro.

Essa iniciativa é fruto de um trabalho voluntário desenvolvido pela Casa Espírita Sebastião Leão, localizada no bairro Glória, que oferece cursos de artesanato e tricot para os frequentadores.

Mas isso não foi suficiente para Leonida Maria Nunes de Oliveira, de 63 anos, moradora da Vila Cruzeiro, casada com um deficiente visual e que precisa lidar diariamente com as idas e vindas do filho, um dependente químico. Portanto, ela e outras senhoras, todas moradoras de comunidades carentes, manifestaram interesse em aprender a ler e há dois anos o grupo tem aulas com as professoras Maria e Ana. A classe se reúne nas terças-feiras, das 14h às 16h e 30min na sede da casa espírita. As aulas só não acontecem em dias de chuva, pois as vovós, como são chamadas pelas professoras “chegavam encharcadas e não tinham roupa para trocar”, explica Maria de Lourdes.

A turma começou com 10 alunas. Uma saiu pois já lia bem e foi para um Nucleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos e Cultura Popular (Neejacp), o popular Supletivo, a outra faleceu recentemente — era a caçula da turma, tinha 55 anos, trabalhava como catadora de materiais recicláveis e uma das mais esforçadas da classe. Chegava nas aulas com quase uma hora de atraso, carregando um sacolão atrolhado do que tirava do lixo. Nos exercícios, confundia “tonelada” com “tomelada”, mas ela não estava de um todo errada. “Depois eu entendi que ela queria dizer que estava melada, suada, pois vinha direto do trabalho, não entendia o que era uma tonelada”, conta a professora Maria de Lourdes.

Para Ana Maria, aposentada que trabalhou a vida inteira com alfabetização infantil, o processo de ensino-aprendizagem da terceira idade é muito parecido ao da criança, com a ressalva de que suas alunas apresentam dificuldade de memorização.

O grupo chegou às 15h e foi direto para a Ala Infantil da Feira do Livro, no Cais do Porto. Tinha certo mistério no ar que envolveu estas novas leitoras, que caminhavam com olhares curiosos, mas tímidos. Um segredo que ia sendo descoberto a cada página virada, e a cada frase decifrada de livros que folheavam lentamente.

Tudo era novidade, e os livretos com mais cores, menos texto e letras maiores ganharam a atenção do grupo. “Trouxemos elas para cá (Ala Infantil), pois os livros são mais simples pra leitura”, explica Maria de Lourdes.

Leonida foi a primeira a escolher seu livro, uma história ilustrada, colorida, de 12 páginas que custou R$ 4,20 e tinha como título A Libélula Voadora. As outras alunas ganharam um livro cada, presente da Casa Sebastião Leão. Os títulos escolhidos foram: Cinderela, Peter Pan, Branca de Neve e os Sete Anões, Chapeuzinho Vermelho, Bambi e O Gato de Botas. Depois, foram assistir, em meio a uma centena de crianças, um teatro de bonecos.

Agora Iara, que custa a revelar a idade dizendo aparentar 40, pois “ainda quer namorar”, pode voltar para casa sem perguntar para ninguém o que está escrito no letreiro do seu ônibus, ler seu livro na viagem e, de quebra, escrever uma carta para seu futuro namorado.

 

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