Dez coisas que aprendi sobre ela: a profissão de Jornalista

Descubro, em algum escaninho virtual, uma espécie de carta que escrevi, faz alguns anos, para um estudante de jornalismo imaginário. A carta seria parte de um manual de jornalismo que nunca foi publicado. A primeira obrigação do jornalista é ser claro e objetivo.

Por Geneton Moraes Neto

 


Aos fatos, pois:

O olhar faz toda a diferença

1 Se, depois de tantos anos de convivência em redações, eu fosse convocado a dar um “conselho” a uma turma de recrutas do jornalismo, diria simplesmente: em nome de todos os santos, por favor, please, s`il vous plâit, não percam nunca a capacidade de se espantar diante dos fatos. Vejam tudo com os olhos curiosos de um menino descobrindo a maravilha do mundo. O olhar faz toda a diferença. É o que distingue um jornalista burocrata de um jornalista interessante. Não existe assunto chato: o que existe é jeito chato de tratar de um assunto.

Cuidado com a Síndrome da Frigidez Editorial

2 Conselho número dois: não existe nada tão triste quanto a figura do velho jornalista, pretensamente “sábio”, que passa o tempo todo jogando no lixo as matérias (e o entusiasmo) dos repórteres. Cuidado com eles. Fazem mal à saúde da profissão, porque sofrem de uma doença que cataloguei como Síndrome da Frigidez Editorial (SFE). É um mal que acomete os “derrubadores de matérias”.

Não vire inimigo da notícia

3 O jornalista pertence a uma categoria especialíssima: de tanto conviver com fatos extraordinários, ele corre o risco de um achar tudo “normal” e “ordinário”. Neste momento, ele se transforma naquele sujeito entediado que, para o bem do Jornalismo, deveria estar exercendo outra profissão. Cuidado para não se transformar num desses inimigos da notícia. Parece incrível, mas existem, às pencas, nas redações.

“acorda, Gutemberg!”

4 Quando cruzar com um desses Monumentos ao Tédio Profissional, faça uma oração silenciosa em louvor a Gutemberg, o Pai da Imprensa. Pode servir de exorcismo. Ou então deixe escrita uma frase, no muro de seus protestos imaginários: “Acorda, Gutemberg! Eles enlouqueceram!”. ( É uma homenagem indireta ao estudante que, ao ver os tanques soviéticos invadirem a Tchecoslováquia para esmagar a Primavera de Praga, em 1968, pichou num muro: “Acorda, Lênin: eles enlouqueceram!”). O espírito ingênuo daquele estudante bem que poderia inspirar os guerrilheiros do jornalismo. Acorda, Gutemberg: eles enlouqueceram. Não deixai que os dinossauros pisem na alegria e na inocência dos que acreditam que o Jornalismo pode ser interessante, vivo, criativo e original. O importante é tentar.

Prepare-se para a insensibilidade alheia

5 Se eu fosse descrever os casos de matérias que foram derrubadas pelo tédio, pela cegueira, pela insensibilidade ou pela mera incompetência de editores, preencheria uma enciclopédia inteira. Pouparei vossa paciência. Mas, calouros, em verdade vos digo: preparem-se para sofrer com a insensibilidade alheia. Faz parte da profissão.

Jamais deixe o azedume da vida contaminar o texto

6 O grande escritor Italo Calvino disse — com outras palavras — que enfrentava um desafio: jamais deixar que o eventual azedume da vida contaminasse o texto. As palavras, as frases, os sujeitos, os verbos, os predicados — tudo precisa de vivacidade, clareza, sutileza, vida própria. A regra não vale apenas para os escritores: vale também para os jornalistas — inclusive os novatos. Nunca é cedo para aprender.

Não jogue fora a notícia antes de tentar

7 Seja saudavelmente pretensioso. Faça a si mesmo uma pergunta antes de resmungar porque foi escalado para entrevistar uma celebridade que já deu mil entrevistas: quem sabe se, na milésima primeira entrevista, eu não consigo arrancar uma história nova, uma declaração inédita, um detalhe que ninguém conhece?

Tente ser o porta-voz da novidade.

8 Fazer bom jornalismo é dar, ao leitor, ouvinte ou telespectador, uma informação que ele não conhecia.

Só escreve bem quem lê muito

9 Ainda não inventaram uma fórmula mágica. A velha regra vale para todos os filhos de Deus: só escreve bem quem lê muito. Ponto final. Revogam-se as disposições em contrário. Cansei de ver nas redações: nem todo mundo que lê consegue ter um texto claro, límpido e atraente. Mas, invariavelmente, quem não lê não sabe escrever. Os maiores absurdos que já li foram escritos por gente que sofre de bibliofobia — horror a livro. Preferem ler revista de celebridade na sala de espera do dentista.

Agora e sempre, espantem-se !

10 Conselho final aos recrutas: o jornalismo ficará cem por cento melhor se todo jornalista olhar o planeta com os olhos de um descobridor chegando ao Novo Mundo. Pedro Álvares Cabral, Cristóvão Colombo, acordai: eu, humildemente, vos nomeio nossos patronos.

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