Dentes perdem batalha

A minha boca resolveu me mandar uma mensagem avisando que aqueles malditos sisos inferiores que nasciam foram reprovados na prova para entrar pro time da mastigação. Motivo: falta de espaço em campo.

Por Tiago Lobo

 


A solução era arrancá-los. Mas eles, talvez por já estarem na região inferior da quadra, eram teimosos, fincaram raízes profundas e disseram que iriam jogar a qualquer custo.

Os sisos, ou dentes do juízo (não sei qual) são terceiros molares e muitas vezes, por razões genéticas, não nascem adequadamente obrigando a extração por causarem desconfortos como dores e inflamações.

Depois de uma semana de febre, tomando analgésicos, antitérmicos e antibióticos receitados por um clínico geral, fui achar alguém que topasse a bronca de dar cartão vermelho pros dois zagueiros. Quem topou foi o Dr. Fernando. Dentista, filho de dentista, irmão de dentistas e que arranca os dentes alheios com precisão cirúrgica desde 1987, entre outros procedimentos odontológicos, é claro.

Era uma sexta-feira, o melhor dia para o procedimento segundo o especialista. Sábado e domingo serviriam de repouso sem interferir em atividades profissionais.

Quando entrei naquela pequena sala de operação e deitei na cadeira do dentista pensei que enfrentaria um vilão dos quadrinhos do Homem-Aranha, dado o emaranhado organizado de “tentáculos” que saíam de um sem número de aparelhos que pareciam micro retíficas. Aí veio aquela luz alaranjada e forte que ilumina a bocarra dos pacientes. Em seguida olhei pro lado e me peguei pensando em quando eu iria babar naquela pequena fonte destinada ao desejo do cuspir.

Após uma limpeza pra remover o tártaro e uma intimação amigável ao uso do nosso amigo fio dental veio o conselho humorado “tchê, faz o seguinte, os dentes que tu quiser ter na boca pro resto da vida tu usa fio dental, os que tu achar que não são muito importantes pode deixar sem”. Nada como o humor pra dizer certas verdades.

Fernando combinou que o melhor seriam duas operações para extração dos quatro sisos. Ele deixou que eu decidisse e já que ia passar uns dias no inferno, melhor era abraçar o coisa ruim.

Mas que diabos! Qual a necessidade de arrancar os sisos superiores se eles não estavam incomodando? Segundo o especialista os sisos, preferencialmente, devem ser retirados aos pares, quando há necessidade de extração. Se você retirar o superior do lado esquerdo e deixar o inferior quieto, em uns dois anos ele vai começar a sentir falta do colega e vai descendo até encontrar a gengiva. Foi aí que descobri que dente gosta de dente. São pares de vaso mesmo, unha e carne… Ok, dente e dente.

A primeira cirurgia foi tranquila. O siso superior direito saiu em menos de cinco minutos. O inferior precisou de uma cavoucada básica no osso. Mas também foi rápido. Agora, a segunda cirurgia foi bem diferente.

Era uma sexta ensolarada e comecei a ver meu dia se fechar quando acordei. Já estava com o lado direito cicatrizado e só pensava no saco que seria passar por tudo de novo. Não imaginaria eu que meu siso inferior entraria em pé de guerra e obrigaria o Dr. a chamar reforços.

Foi assim: cheguei, sentei naquela cadeira reclinável que, não fosse branca e estivesse dentro de uma clínica, serviria de divã moderno. O doutor retirou os pontos, conferiu a cicatrização. Tudo ok.

Aplicou anestesia dentro do mesmo trato que me propôs na primeira cirurgia: “a única regra é não sentires dor”. Infelizmente a regra só se aplica ao ato cirúrgico, mas foi cumprida com honrarias: senti neca de pitibiribas. Mas entendi o significado de suar frio.

Explico. Após a aplicação de uma bucha de algodão com anestésico local, algum tipo de lidocaína (aquelas pastinhas clássicas com gosto de laranja que muitos dentistas adoram e os pacientes odeiam) eu vi uma agulha de filmes de terror com um líquido amarelo transparente. Senti como se fosse o protagonista da novela que deu fama à Mary Shelley ou o Pernalonga em um daqueles castelos macabros. Pode escolher.

Aquela agulha possui 2,5cm de comprimento e a cada siso extraído ela penetra, todinha, várias vezes, na carne. Eu só sentia a resistência do tecido sendo vencida a cada picada e uma ou outra leve fisgada quando o líquido era injetado, com um leve queimar que achei até interessante. Minutos depois metade da boca fica tão dormente que é capaz arrancar os dentes sem sentir nada mais do que pressão e desconforto. No entanto, a quantidade de sangue por conta das incisões na gengiva que o dentista precisa fazer para ver o dente me fizeram pensar: como poderiam os vampiros da literatura sentir qualquer tipo de prazer bebendo sangue? De doce não tem nada. É ferroso, desagradável e nojento.

Como antes, meu primeiro siso, o superior, saiu fácil, fácil. A cada extração o médico imitava o choro de um recém-nascido. Era o código que eu esperava pra saber que tinha me livrado de mais um. Esse em menos de cinco minutos já estava, ensanguentado, nas mãos do dentista. O segundo estava bem escondido. Ainda não havia nem rompido a carne. A raiz era profunda e deu um baita trabalho.

O meu eu repórter não se aguentou e resolveu assistir parte da cirurgia pelo reflexo nas lentes do óculos do Dr. Fernando. Deu pra ver, e entender, o que estava acontecendo. E foi bastante desagradável. Nem com uma chave de fenda especial, usada pra tracionar, aquele maldito pulava fora da minha boca. Aí, dadas as dificuldades, e a minha boca escancarada ficando toda torta, meu sisão (apelido carinhoso daquele pobre diabo) venceu o primeiro round por nocaute. O dentista então, chamou mais um par de mãos e recomeçou a luta. Deu uns três diretos de esquerda, e uns ganchos de direita com uma esteca dental. Usou e abusou daquilo que vou chamar de “broca de dentista”. A cada golpe eu podia ver veias saltando no antebraço que acompanhavam uma pressão de entortar a face, tamanha era a força aplicada. Até que ele sufocou o sisão com uma chave-de-braço aplicada por um alicate diferente. Saiu a criatura e a cratera, após receber os pontos, foi descrita como uma “daquelas viagens de Gulliver”. Olhei pro doutor e vi gotas de suor correndo pela testa. Na minha boca, sangue. Então ele me disse: “É cara, esse me deu trabalho”. Mas, pelo menos, colocamos aqueles dentes nos seus devidos lugares: bem longe da minha mandíbula.

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