Pensamento – Jornalismo e Direitos Humanos

Confiança na imprensa: a receita dinamarquesa

Por Tiago Bianchi
Direto de Aarhus, Dinamarca 

A maioria dos dinamarqueses, quando indagados pelas ruas se confiam na imprensa, falarão em erros, tendenciosidade e etc. Mas se você conversar sobre uma perspectiva geral, eles dirão: “bem, eu confio na imprensa, afora veículos que são tendenciosos, cometem erros ou tem entretenimento demais”.

 A conclusão é de Roger Buch, PhD em ciência política e professor na Escola Dinamarquesa de Jornalismo (DMJX) de Aarhus, a segunda maior cidade da Dinamarca.

Roger Buch (Foto: Farzad Soleimani)

 

Enquanto lê seu Weekendavisen, um dos maiores jornais do país, o professor de francês Emil Danino garante estar despreocupado sobre fenômenos como desinformação ou polarização política no jornal que segura: “eles não tentam esconder de que lado estão, esquerda ou direita. Se você entender errado é culpa sua”. A taxista Kitte Højer também confia nas notícias que lê: “eles geralmente tentam ser os mais honestos possíveis”.

 

“eles geralmente tentam ser os mais honestos possíveis”.

 

Um cenário desses parece difícil de acreditar em qualquer lugar: segundo o Edelman Trust Barometer de 2017, a confiança na imprensa ao redor do mundo vive uma baixa recorde devido ao “populismo virulento e nacionalismo.” Em meio a fakes, radicalização e desconfiança, poucos países parecem ter uma atmosfera tão tranquila quanto o pequeno país escandinavo. Primeiro no Ranking Internacional de Transparência e segundo no Relatório Internacional de Felicidade das Nações Unidas, pouca coisa parece ameaçar a reputação do sistema de mídia por aqui.  

Segundo pesquisa feita pelo Eurobarometer em 2018, 64% dos dinamarqueses confiam na imprensa, contra 47% da média da União Européia — níveis mais altos foram observados apenas na Finlândia, Suécia e Holanda. A Dinamarca, assim como todos estes, tem um alto padrão de imprensa como serviço público e pouca preocupação sobre conteúdos falsos e desinformação, como afirma o relatório de notícias digitais do Instituto Reuters, de 2018 (em inglês). Os mesmos níveis de confiança são vistos nas instituições e entre relações interpessoais, uma característica reconhecida da sociedade dinamarquesa. Como podem ser explicados? É apenas contexto social ou o jornalismo dinamarquês tem algo especial? E o que podemos aprender com os nórdicos?

Confiança como marca da sociedade

Sem maiores conflitos sociais nas últimas décadas e com ausência de medo com relação a segurança pública, a confiança dinamarquesa chega a soar absurda para outras nações. Em seu livro Trust [Confiança, sem tradução para o português], o especialista em corrupção e professor da Universidade de Aarhus Gert Tinggard Svendsen ilustra essa calmaria com o caso de uma jovem mãe dinamarquesa que foi presa em Nova York em 1997 depois de deixar sua filha de 14 meses em um carrinho na parte de fora de um café: “ela não se deu conta que nos Estados Unidos é considerado completamente irresponsável deixar um bebê sozinho na rua em seu carrinho. No tribunal ela argumentou que é tradição na Dinamarca deixar seus bebês do lado de fora sem medo de sequestros, roubos e etc.”

Gert Tinggard Svendsen (Reprodução)

 

Svendsen lembra que “a Dinamarca é um modelo de como pouca corrupção e boas instituições possibilitam o crescimento econômico.”

 

“a Dinamarca é um modelo de como pouca corrupção e boas instituições possibilitam o crescimento econômico.”

 

Em um artigo intitulado “Excepcionalismo Dinamarquês: explicando o singular crescimento na confiança social nos últimos 30 anos”, os pesquisadores Kim Mannemar Sønderskov e Peter Thisted Dinesen observaram que jovens dinamarqueses tendem a ser ainda mais confiantes por conta do crescimento na educação mas, mais importante, devido ao ambiente político calmo desde a Segunda Guerra Mundial. 

A confiança apontada pelo Eurobarometer nas instituições políticas e sociais tem relação direta com a confiança nos veículos de imprensa do país. Os pesquisadores Thomas Hanitzsch, Arjen Van Dalen e Nina Steind definem a confiança na imprensa como “uma forma de confiança institucional: a disposição da audiência a ser vulnerável ao conteúdo noticioso baseado na expectativa de que a exposição à mídia vai ocorrer de maneira satisfatória.”

Em seu livro “Pós-Verdade: A Nova Guerra Contra os Fatos em Tempos de Fake News”, o jornalista britânico Matthew D’Ancona afirma que “vivemos em um mundo de fragilidade institucional”. Ele escreve que “quando os supostos fiadores da verdade vacilam, a verdade também o faz.”

 

“quando os supostos fiadores da verdade vacilam, a verdade também o faz.”

 

A Dinamarca parece ter uma barreira protetora contra a decadência global da “verdade”, no que Ulrik Haagerup, fundador e diretor do Instituto Construtivo para o Jornalismo, afirma que as Fake-News, o grande debate entre os anos de 2018 e 2019, não são um problema por aqui: “se você define fake-news como notícias plantadas no debate público com o objetivo deliberado de desinformar e manipular o discurso público, eu não fui capaz de encontrar mais de duas histórias por mês na mídia tradicional (da Dinamarca).”  

Ulrik Haagerup durante a “Conferência Global de Jornalismo Construtivo” em Aarhus, em outubro de 2017 (Foto: divulgação)
 
“se você define fake-news como notícias plantadas no debate público com o objetivo deliberado de desinformar e manipular o discurso público, eu não fui capaz de encontrar mais de duas histórias por mês na mídia tradicional (da Dinamarca).”

Em seu artigo “Confiando na Imprensa e confiança política: uma relação condicional”, o pesquisador Gal Ariely defende que a confiança na política está diretamente relacionada aos níveis de confiança que serão refletidos na imprensa. Ele concluiu que países que exibem mais autonomia midiática e profissionalismo jornalístico evidenciam uma relação mais fraca entre a imprensa e a confiança política do que em países nos quais a mídia é mais restringida e jornalistas são menos profissionais. Em contraste, ambientes de mídia caracterizados por paralelismo entre imprensa/partidos — com viéses partidários — exibem uma relação mais forte entre os dois”.

Roger Buch, citado no início do texto, opina que essa segurança tem mais a ver com fatores da imprensa relacionado com os fatores políticos de cada país: “na Dinamarca você pode ver que a confiança em políticos, democracia e imprensa tendem estar conectadas. Isso pode ir para dois caminhos: durante grandes escândalos ou reformas impopulares, você verá que a confiança em políticos tende a baixar, mas não para a imprensa. Por outro lado, se você olhar para uma perspectiva histórica isso parece afetar os dois lados, quando você tem uma crise econômica a confiança geral nas instituições tende a cair.”

Ariely dá uma regra mais firme: “quanto menos o ambiente de imprensa é restrito por limitações políticas e econômicas, e quanto mais profissional o jornalismo é, mais próximo o ambiente de mídia se enquadra na percepção público para o ideal normativo ou distância da esfera política. Quando mais jornais partidários existem, é mais improvável encontrar esse ideal.”

Um serviço público atuante

A confiança dada pelos dinamarqueses também é refletida pelas principais fontes de informação da população: um estudo conduzido pelo Centro Pew de Pesquisa para Jornalismo em 8 países da Europa Ocidental (Suécia, Alemanha, Espanha, Holanda, Reino Unido, França, Itália e Dinamarca) aponta que na Dinamarca aqueles mais à esquerda ou à direita diferem de alguma forma na fonte midiática que eles mais usam para notícias, mas ambos os lados citam as mesmas fontes principais: DR News (“Rádio da Dinamarca”, confiada por 79% dos dinamarqueses) e a TV2 News (80%), ambos veículos com estrito direcionamento para prestação de serviço público. O mesmo fator é visto para sete dos oito países pesquisados, onde “o veículo mais confiado é a organização noticiosa pública de cada país.”

Além disso, o estudo observou que 42% dos adultos dinamarqueses consideram veículos de imprensa “muito importantes para a sociedade”, enquanto quase metade (47%) afirmam confiar em veículos de imprensa. 10% dos adultos que confiam “muito” na imprensa.

O estudo afirma que na maioria dos países analisados, pessoas com pontos de vista mais populistas são menos propensos a dizer que veículos de imprensa são importantes e que confiam nos mesmos do que pessoas com pontos de visões não-populistas, com pequenas diferenças nas atitudes entre aqueles pendentes à esquerda ou à direita. O mesmo se confirma para a Dinamarca, onde 37% das pessoas com pontos de vista populistas dizem que a imprensa é importante para a sociedade, comparados com 48% daqueles com visões não-populistas.

Lars-Åke Engblom (Foto: divulgação)

 

De acordo com o pesquisador Lars-Åke Engblom, “a Dinamarca representa uma combinação única de um modelo de serviço público de radiodifusão orientado para o mercado.” Isso porque aqui a maior parte dos veículos de imprensa, públicos ou privados, são financiado por taxas de licença. E é lei: Segundo o site da DR, “na Dinamarca toda pessoa que tem uma televisão ou computador, smartphone ou tablet com acesso a internet tem que pagar uma licença de mídia”. É um valor mensal.

 

“a Dinamarca representa uma combinação única de um modelo de serviço público de radiodifusão orientado para o mercado.”

 

Segundo o pesquisador, a maior parte das taxas de licença da Dinamarca vai para a DR. A Dinamarca tem a maior proporção de pagadores desse tipo de licença, aproximadamente 95% da audiência, em um país onde mesmo uma “rádio falada” como a 24syv é totalmente financiada por essa taxa.

Mogens Blicher Bjerregård, presidente da Federação Europeia de Jornalistas (e natural da Dinamarca) aponta que o jornalismo-serviço de alta qualidade daqui é vital para a confiança que permeia a sociedade dinamarquesa: “quando você faz jornalismo confiável, também é sobre trazer confiança da administração pública  e de diferentes instituições, porque estes sabem que você terá uma boa imagem para o jornalismo, que você será descoberto se estiver fazendo algo errado, e para a transparência em geral”. Haagerup completa a correlação: “jornalismo e a imprensa não funcionam em uma democracia: a democracia os faz funcionar. Se há censura e nenhum modelo financeiro para jornalismo de qualidade, então este último não existe”.

 

“jornalismo e a imprensa não funcionam em uma democracia: a democracia os faz funcionar. Se há censura e nenhum modelo financeiro para jornalismo de qualidade, então este último não existe”.

 

Isenção é a chave

O “princípio do comprimento do braço”, mais comumente chamado de “princípio da plena concorrência” é definido como “uma separação constitucional de poderes entre os ramos judiciários, executivos e legislativos do  governo (…), também representados pela divisão de poderes entre órgãos governamentais em um Estado federal (…). O ‘princípio do comprimento do braço’ também é aplicado na relação entre governos e a imprensa na maioria dos países ocidentais.” Não apenas esta regra é conhecida pela população dinamarquesa e inerente a seus profissionais de imprensa, mas questão de política pública para o Ministério da Cultura da Dinamarca, como enfatizado em seu site: “nem políticos ou o Ministério da Cultura estão envolvidos concretamente na alocação de subsídios ou agem como árbitros de preferências. O papel do ministério é, primeira e majoritariamente, agir como um arquiteto de um âmbito para uma política cultural abrangente e, em colaboração com o Parlamento, estabelecer objetivos para criar estruturas que formam a base de uma política cultural na Dinamarca.”

Apesar disso, uma nova medida pode estar ameaçando esse princípio: após uma forte discussão com motivos ideológicos, “a coalizão de direita do governo decidiu em março de 2018 pela redução do orçamento anual da principal instituição de serviço público (DR) em 20%”, aplicado gradualmente ao longo dos próximos cinco anos, também seguido por uma decisão de abolir a taxa de licença, chamada de “injusta para grupos mais jovens e de menor-renda, para então financiar a DR diretamente pela taxação do estado”, como informa o relatório de notícias digitais do Instituto Reuters de 2018. Em outras palavras, o dinheiro para este serviço público virá diretamente do orçamento da União e não de uma taxa de licença administrado pelo veículo, facilitando para o governo efetuar mudanças e gerar controle.

Mogens Blicher Bjerregård (Foto: divulgação)

 

Bjerregård afirma que o financiamento público da mídia é genuíno na Europa, e lamenta a medida: “a maneira original de financiamento da DR por licença era, na minha opinião, a melhor maneira de fazê-lo porque era pago diretamente pelos cidadãos. Agora o ‘princípio do comprimento do braço’ está ameaçado. E isso é problemático porque assim se dá aos políticos uma ferramenta para influenciar a imprensa, um retrocesso no que tínhamos.”

Um ambiente profissional saudável

Apesar dessa ameaça, o apoio à uma imprensa plural sempre foi tradição para a Dinamarca. Bjerregård lembra do “suporte para a democracia”, um fundo que ajuda vários veículos a sobreviverem, onde estes podem pedir ajuda de acordo com o quanto de conteúdo produzem e por quantos jornalistas estão empregando: “há um orçamento anual de 450 milhões de Coroas dinamarquesas (equivalente a 60 milhões de Euros ou 67 milhões de Dólares) para esta ajuda, que tem grande impacto no pluralismo do mercado midiático, para mídia impressa, online e privada, fornecendo uma situação financeira sustentável.”

Mas há ainda outras lições para serem aprendidas deste ambiente fértil. Ele aponta que a educação de jornalistas na Dinamarca tem uma diferença significativa pela exigência, em média, de pelo menos um ano de estágio obrigatório para estudantes de jornalismo — o tempo varia de acordo com a região e universidade, mas segue longo se comparado com outros países. Crítica da mídia também tem um papel importante, onde parte significativa de programas de TV e rádio, além de jornais, olham para si mesmos de maneira crítica. Você também tem ombudsmans na imprensa privada (TV2), DR e no Politiken (outro grande jornal do país). Códigos profissionais estritos e a correção de erros são levados muito à sério, onde conselhos de imprensa recebem reclamações e são prontamente obedecidos — até mesmo o local onde o erro foi cometido será usado para corrigí-lo, como a mesma página do jornal.

 

“esse é um país pequeno e você tem poucas pessoas comprando jornais, que estiveram lutando por décadas para sobreviver e uma resposta da mídia é que eles realmente tentam ser isentos, uma virtude da nossa imprensa”. 

 

Apesar de receber tamanho benefício do governo, Roger Buch afirma que o jornalismo dinamarquês ainda luta para ser vendido: “esse é um país pequeno e você tem poucas pessoas comprando jornais, que estiveram lutando por décadas para sobreviver e uma resposta da mídia é que eles realmente tentam ser isentos, uma virtude da nossa imprensa”. Ele conta que a apropriação da imprensa não é tão concentrada como se observa na Itália, Austrália e às vezes no Reino Unido (referindo-se a Rupert Murdoch, magnata da imprensa). Há um forte ecossistema de serviço público de imprensa mas também a propriedade de pequenos jornais. “Nesse caso, você pode até ver a opinião dos donos, mas isso não afeta o jornalismo”, garante.

“Se eu pudesse falar algo mais, seria sobre o diálogo entre jornalistas. Mesmo entre competidores, você verá que os jornalistas cooperam entre si”, completa Bjerregård.

Afinal, a Dinamarca parece trazer em seu contexto de alta confiança e harmonia, um ambiente saudável e fértil para bom jornalismo para seus cidadãos, altamente exigentes mas bastante cooperativos para sua existência. A ideia de um país pequeno, com uma alta confiança comunitária é novamente ilustrada pela taxista Kitte Højer: enquanto falava sobre tranquilidade da imprensa dinamarquesa, ela lembra que “nossa Rainha (Margrethe II), foi casada com um homem que veio da França (Henrik, príncipe consorte da Dinamarca, que faleceu este ano). Ele notou que os dinamarqueses são como uma tribo: somos tão poucas pessoas e conhecemos todo mundo, então tendemos a confiar nos outros”. O mesmo parece se aplicar para a imprensa do país.

 

“Se eu pudesse falar algo mais, seria sobre o diálogo entre jornalistas. Mesmo entre competidores, você verá que os jornalistas cooperam entre si”