Como falar de mídia e democracia na região amazônica?

“Vista do alto, Vilhena, um dos pólos econômicos do sul rondoniense, parece mesmo uma clareira no meio da floresta” (Foto: Taís Seibt)

Diga a um sulista que você vai a Rondônia e prepare-se para as chacotas envolvendo onças, jacarés e sucuris. Vista do alto, Vilhena (foto acima), um dos pólos econômicos do sul rondoniense, a 600 quilômetros de Porto Velho (RO) e igual distância de Cuiabá (MT), parece mesmo uma clareira no meio da floresta. Vista de dentro, é uma daquelas cidades de identidade cultural difusa, na qual traços de povos originários resistem com dificuldade diante de migrantes que abriram picadas na mata para plantar soja e criar gado na região amazônica.

Por Taís Seibt

Publicado originalmente na Revista Trendr

 

Você pode tomar um delicioso suco de cupuaçu em Vilhena (minha bebida amazônica predileta, depois da cachaça de jambu — ❤ Pará), mas também será fácil achar companhia para um mate. Tem uma “casa do chimarrão” no centro da cidade, gente desfilando de camisa do Grêmio no shopping e o barzinho descolado toca Engenheiros do Hawaii. Também tem programa de música nativista na rádio local e, se der sorte, você ainda pega o mesmo avião que um grupo tradicionalista devidamente pilchado com a roupa tradicionalista gaúcha, como manda o figurino de um bom Centro de Tradições Gaúchas, CTG.

Está certo que lá também tem o Salão Ceará, a Loja Manaus, o Lava-Jato Paraná e outras referências más. Um dos precursores da imprensa vilhenense é um simpático migrante peruano (naturalizado brasileiro), que resiste num cenário midiático dominado por grupos políticos pouco interessados nos meandros dessa diversidade regional. Pesquisa da colega Pâmela Pinto, em tese de doutorado defendida na Universidade Federal Fluminense (UFF), mostra que Rondônia é um dos estados com maior concentração de mídia nas mãos de políticos. Não que o cenário seja muito diferente no Sul, em termos de concentração, mas há diferenças regionais importantes — e preconceitos que precisam ser combatidos antes de se querer transmitir qualquer lição.

Ao receber o chamado da Faculdade Santo André (Fasa), por intermédio de um ex-colega de redação, para dar aula de comunicação institucional numa turma de pós-graduação do interior de Rondônia, esta “alemoa” da serra gaúcha se confrontou com esse tipo de questão.

Não dava para reproduzir as cartilhas de Nova York, nem de São Paulo, nem mesmo de Porto Alegre. Era preciso considerar que o norte brasileiro tem o menor mercado midiático do Brasil, o menor PIB, e também o maior território e o maior patrimônio ambiental do país. Rondônia convive com intensos conflitos agrários, que envolvem fazendeiros, posseiros e indígenas, é lugar de forte concentração de renda e desigualdade social, sem contar as castas políticas que cerceiam a liberdade de imprensa. E minha origem responde por uma parte significativa dessas tensões.

Como, então, falar de mídia
e democracia na região amazônica?
Entendi que o melhor caminho
era lançar perguntas em vez
de oferecer respostas.

São as interrogações que abrem caminhos, tanto para quem pergunta quanto para quem responde. Mergulhados no cotidiano, não nos damos o devido espaço para confrontar a realidade que nos cerca. Às vezes é preciso que alguém de fora venha nos provocar. E quando ignoramos a realidade do outro, também pouco podemos contribuir para o seu esclarecimento. A construção do conhecimento, afinal, se dá na troca.

Como profissionais de comunicação, neste mundo conectado, onde tudo se comenta e compartilha, precisamos promover mais trocas. Só que para trocar, é preciso ouvir. O problema é que hoje todo mundo fala, mas pouca gente escuta. Por isso não nos entendemos, não nos conhecemos, não nos respeitamos.

Democratizar a mídia
não é só dar voz, mas
também ouvidos
a mais gente.

Se há uma lição que vale para o pampa e para a floresta, para o Vale do Silício e o do Jequitinhonha, é que uma sociedade verdadeiramente conectada não se reduz a curtidas no Facebook. O convite da Fasa foi mais do que um chamado para dar aula no Norte, foi uma oportunidade de sair da bolha sulista para conhecer um Brasil ignorado pela maioria. No retorno ao Sul, sinto que aprendi mais do que ensinei.

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