Carlos Wagner: um repórter dos confins

Carlos Wagner foi homenageado no 12º Congresso da Abraji (Foto: Alice Vergueiro/Abraji)

Não foram os debates a respeito dos desafios e tendências para o jornalismo contemporâneo que me levaram ao 12º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). O que me levou até lá foi o legado de um repórter. Um repórter dos bons. E um repórter dos confins.

Por Taís Seibt

Publicado originalmente na Revista Trendr

 

Foi o colega Carlos Etchichury, editor-chefe do Diário Gaúcho, que apresentou Carlos Wagner como um “repórter dos confins” durante a sessão especial que o homenageou no Congresso da Abraji. Wagner é um dos poucos a obter projeção nacional sem nunca ter feito carreira em um veículo do eixo Rio-São Paulo. Ele até se gaba de ter recusado convites de grandes jornais do centro do país. Quis fazer história sem sair do Rio Grande do Sul.

Mas não são os 30 e tantos prêmios que ele diz ter ganho que fazem de Carlos Wagner um repórter diferenciado. Criado em Encruzilhada do Sul, uma cidadezinha rural do interior gaúcho, Wagner percorreu os confins do oeste brasileiro para contar histórias de migrantes do sul que se instalaram na região amazônica para cultivar lavouras e criar gado. Desenhou um “Brasil de Bombachas” que representa parte importante dos conflitos étnicos e ambientais daquele canto do país.

Foi nos confins do Paraguai que ele descobriu como se formava um novo gentílico no país vizinho, meio brasileiro, meio paraguaio, até se converter brasiguaio.

Nos confins da fronteira brasileira com a Argentina e o Paraguai, Wagner demarcou um “País Bandido”, um território sem lei, sem ética e sem governo. E nos confins do interior do Rio Grande do Sul, ele viu crescer um dos principais movimentos sociais do período de redemocratização do Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).

Só que também não é pelos temas que lhe deram visibilidade, a ponto de ser consultado por jornais de referência e pesquisadores de diferentes áreas a respeito de assuntos que ele conhece como poucos, que fazem de Carlos Wagner um personagem singular.

Quem olha apenas para o currículo, não imagina a simplicidade do homem que influenciou gerações de repórteres na redação de Zero Hora. Um homem que usa suspensório, ostenta um palavreado por vezes chulo, quase politicamente incorreto, e ainda por cima é gago.

Foi num monótono plantão de sábado em dois mil e qualquer coisa que Carlos Wagner, enfim, notou minha presença naquela redação. Sábado na Zero Hora, antes da virada digital, era assim: meia dúzia de náufragos em suas ilhas, esperando alguma coisa (não) acontecer. A edição dominical do jornal impresso fechava na sexta, com dois ou três espaços em branco para acidentes de trânsito e assassinatos que porventura viessem das rondas policiais antes das 9h da manhã seguinte. A edição do interior fechava às 10h. A da capital, às 12h. E às 14h, graças às modernas rotativas recém adquiridas para o novo parque gráfico da firma, o jornal de amanhã já estaria sendo vendido ali na esquina.

Eu era estagiária da Central do Interior, um departamento da redação que fazia a articulação entre a sede do jornal, em Porto Alegre, e as sucursais espalhadas pelo interior do Rio Grande do Sul. Minha ilha ficava bem no meio do salão, perto das impressoras. Eu estava de cabeça baixa, digitando qualquer nota para o site, quando um homem semi-calvo, de suspensório, debruçou-se sobre a impressora e me olhou por alguns instantes. Após recolher a prova da página para revisão, ele parou na minha frente, e disparou:

— Sabia que tu és a mu-mulher mais bo-bonita desta ilha?

Olhei para os lados, e mandei de volta, em tom de pergunta:

— Talvez porque eu seja a única?

Ele soltou uma gargalhada, a diagramadora na ilha ao lado riu também e ali se iniciou um típico diálogo com Carlos Wagner: de onde tu vens, o que queres com jornalismo, o que teu pai faz, e muitos “galanteios” entre uma resposta e outra. A gagueira e os elogios a qualquer ser humano do sexo feminino são marcas de Carlos Wagner (os mais íntimos dirão que ele é bagaceiro mesmo).

Wagner tinha um assento estratégico na redação: ele sentava na primeira cadeira da primeira ilha, à direita de quem entra. De lá, ele via absolutamente tudo o que se passava no salão — e quase ninguém via o que ele estava fazendo. Quase ninguém. Quando fui transferida para a Geral, onde trabalhei por três anos, minha cadeira ficava ao lado de Humberto Trezzi, que se sentava imediatamente em frente ao Wagner. Se havia uma posição mais privilegiada que a de Wagner naquela redação, era a minha.

Daquela cadeira, presenciei grandes apurações de gigantes da reportagem e ouvi muitas histórias pitorescas. Foram três anos de mateadas diárias e até algumas pautas em parceria. Enquanto cevava o mate, Wagner tinha o costume de passar de mesa em mesa perguntando para os jovens repórteres com o que estávamos “mexendo”. Ele sempre tinha um palpite para dar entre um mate e outro. Geralmente os palpites dele eram certeiros.

Ganhei de Wagner o apelido de “Gramado”. Receber um apelido de Carlos Wagner é quase uma homenagem: quando Wagner te dá um apelido, isso significa que você tem alguma relevância para ele. Ele nos apresentava pelos codinomes quando algum novato chegava à redação: este aqui é o Zé Pequeno, aquele o Carcereiro Alcides, a Mika, a Negra, o Rabino, o Torpedo…

Mas também lhe era característica a abordagem, digamos, sem filtro: “ô, gostosa” ou “ô, viado” eram pronomes de tratamento que valiam para a colega ao lado tanto quanto para o delegado ao telefone. Wagner é um personagem tão singular que nem mesmo esse linguajar lhe fechava portas. Pelo contrário.

Entre os mais jovens, o respeito e a admiração eram tamanhos que ele recebeu o apelido de . Wagner é o Vô que abraça e dá conselhos quando os editores — “cabeças-ocas”, segundo o próprio — dizem que está tudo errado.

É o Vô que amamos e admiramos, que nos inspira, que representa o que gostaríamos de ser. Tenho dúvidas se algum de nós se aproximará de um legado como o dele. Foi isso que me desafiou a contar a história de Carlos Wagner. O que o faz tão diferenciado? Tão único?

Saímos do jornal quase ao mesmo tempo. Eu, talvez precocemente, com vontade de estudar e testar novos desafios. Ele, com muito barro na sola dos sapatos e um conhecimento que não está nos livros.

No dia da despedida, depois de mais de três décadas dedicadas à reportagem, Wagner fez um discurso no Porta Larga, um boteco meio “pé sujo” que fica ao lado de ZH e era quase uma extensão da redação.

— Quem diria que o filho da dona do cabaré, aquele marginal lá de Encruzilhada, chegaria tão longe! — abriu a fala, arrancando as primeiras risadas.

Quando Wagner fala, ninguém segura o riso. Foi assim também no Congresso da Abraji. Mas a verdadeira graça de Wagner está na capacidade de nos fazer pensar. Tenho conversado, oficial e extraoficialmente com Wagner com alguma regularidade desde o ano passado, quando surgiu a ideia de escrever sua biografia. Tenho aprendido muito em cada encontro. Cada conversa com ex-parceiros de reportagem, ex-chefes, amigos de infância, familiares revela um traço marcante de uma trajetória peculiar.

Os jovens repórteres que não terão, como eu tive, a oportunidade de conviver com Wagner, embora possam se inspirar em suas “histórias mal contadas”precisam saber quem ele é, de onde veio e onde chegou.

O filho da dona Loni chegou longe. Conquistou o respeito e a admiração que lhe faltaram na infância marginalizada. Saiu dos confins do interior gaúcho para se tornar repórter. Um repórter dos bons. Um dos melhores.


 

Enquanto o livro não sai (já aviso que a apuração vai levar mais um tempinho), não deixem de ver o documentário que os irmãos Golberg & Rabin produziram para a Abraji. Ficou maravilhoso!

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