Caçando zumbis em Floripa

Rolei pelas sarjetas do centro da Ilha da Magia por algumas madrugadas durante a Semana Santa procurando zumbis. É a turma do crack. Se diz zumbis porque a droga os deixa fora da casinha.

Por Renan Antunes de Oliveira
De Florianópolis, SC

 


Deixei crescer a barba, vesti uma roupa surrada e me enrolei num cobertor velho. Com figurino de mendigo e olhos de repórter, comecei na Matriz. Eram nove da noite da segunda-feira dia14. Bati o olho e achei ali mesmo a zumbi Zildinha. Pra quem passa na corrida fica difícil reparar naquela negrinha petit, cabelo black power, jeans imundos, sentada bem quietinha na escadaria.

Ela tá na esquerda da foto da próxima página, olhando o carro da direita. Este é de um pessoal que dá quentinhas grátis pra zumbis, drogados light, bêbados, sem teto, gente de rua – é tudo chinelagem, mas eles também precisam comer.

Logo pinta um garotão sarado, Tiago. Disse que tinha pena de nós. Que, se pudesse, nos ajudaria. Se contentou em me dar a quentinha e dois copos de Coca – um seria pra Zildinha, que não quis o dela. Ignorei o arroz com feijão. Devorei o guizadinho com farofa, simplesmente divino.

Esnobado pela zumbi

Me aproximei da Zildinha Insignificante para tentar jantar com ela e puxar papo. Me deu um olhar inexpressivo e virou pro lado. Me toquei que era mal-vindo e fui traçar meu guizado noutro point. Lá pelas 10 passa o fotógrafo Ado Marques, ex-coleguinha no DC. Fui reconhecido. Com a boca cheia de farofa, dei uma dispensada nele.

Quando comecei a caminhar, adicionei minha quentinha ao figurino, achando mais convincente – anote, porque adiante você saberá o destino dela.

Território do gigante

Encontrei o gaúcho Wagner e o goiano Murilo jantando embaixo da marquise ao lado do Itaú.

Wagner era bêbado e mal-humorado. Avisou que ali onde ele botou os papelões era canto dele: “Você não vai dormir aqui, senão o Gigante te pega”, ameaçou.

Murilo explica: “Gigante é o ‘pai’ dele”, um mendigo forte que tomaria conta do espaço e protegeria Wagner – além de drogado, bêbado e mal-humorado, ele é aleijado. Sozinho, viraria presa fácil da turma do mal.

A única evidência da existência do Gigante era uma mala vermelha, com rodinhas, gigantesca. Wagner : “Tô cuidando das coisas dele”.

Murilo era moço e saudável. Tatuado. Disse que eu conseguiria vaga para dormir no albergue da Hercílio Luz. Mas “só com carteira assinada e sem ficha na polícia”. Isto me fez perguntar o motivo dele estar ali e não no albergue. “Perdi minha CT”, disse, sem indicar quando e onde. Da ficha na polícia, achei descortesia perguntar – tava na cara.

Os dois me deram uma longa aula sobre como viver nas sarjetas. Legal a parte do banho em fontes. Eles usam uma torneira pirateada de um relógio da Casan na Tiradentes. Xixi e o Nº 2 em qualquer canto – por isso aquele cheiro que às vezes você sente quando caminha pelo Centro.

“Comida não vai faltar pro senhor, esta cidade é muito boa”, atesta Murilo. Ele e Wagner dividiam um Xis com Coca. Me convidaram pra meter a mão no xis, todo esfarelado. Cometi o erro de agradecer. Dar ‘obrigado’ foi como um tapa: pobre nunca recusa e come o que pinta!

Trabalhador modelo

Encontro um sujeito saindo da Secretaria da Fazenda. Era Joelson Coelho, da informática, cedido pelo Ciasc – falante, só faltou dar o número do CPF.

Ele se justificou por estar trabalhando depois das 23h! Disse que precisava adiantar um serviço, melhor ficar além do expediente do que descumprir seus deveres. Vai para o trono ou não vai?

No coração do mal

Fui pro território livre do Edifício das Diretorias. Ali vivem dezenas do drogados. Desde seus ninhos de papelão, dominam colunas e marquises.

Em grupo, os zumbis ficam intratáveis. Gritam, xingam, ameaçam quem passa. Por experiência, sabia que se puxasse minha Lumix Leica do bolso ia me dar mal. Só tive coragem clicar os que tavam dormindo.

Os porteiros do edifício Itamarati, da Vidal, apontam aquele pico e uma esquina perto do Clube 12 como os piores, exceto pelas quebradas no aterro, terra de ninguém.

Dizem que a turma das Diretorias comanda o crack no centro. Ali é o melhor local para dormir, mais protegido. Por um acordo não escrito, a PM não mexe com eles: “Conquistaram o território”, diz um vigilante da Protege.

Na minha ronda enfrentei muitos olhares hostis. Na noia, achei que desconfiavam do mendigo de passos firmes. Mas conclui que a maioria já se conhecia e eu era só o estranho. A menina Lais me clicou fingindo mexer numa lata de lixo. Deu 10 pro disfarce, me tranquilizando.

Fui pra praça do TAC. Uma rodinha de gaúchos numa mesa do quiosque. Entre eles, um diretor do Sindicato dos Bancários. O tema era maragatos. A mesa era comandada por um barbudo alegre.

Um gordo careca com a camiseta do Inter fazia o contraponto às piadas do alegre. Uma zumbi noiada apareceu, pediu o dinheiro da passagem. O sindicalista catou alguma coisa no bolso e estendeu a mão, com alguns centavos, sem olhar na cara dela.

Quando a zumbi se foi, ele disse alguma coisa baixinho que fez a turma toda explodir numa gargalhada só.

Sem piedade

Bem depois da meia-noite, tudo deserto, tentei descansar um pouco na escadaria da catedral. Surpresa! Ela tem um vigilante que escorraça chinelões.

Insisti. falei do santuário que a Igreja oferece aos perseguidos-doentes-abandonados. Nada sensibilizou o homem. Pedi pela caridade cristã: “Se você continuar, eu chamo a PM”, rosnou.

Fingi tremer nas bases. Me enrolei no cobertor e sai de fininho. Fui xingando todos os santos . Tentei a igreja evangélica da Graça, perto do TAC. Zero zumbis nela também. Tão caridosa quanto a Matriz: fez uma baita cerca pontiaguda, pobres fora.

O Sexorama

Na frente do TAC mora um pessoal cascudo. Uma senhora obesa, de cabelos brancos e voz potente, comanda o pedaço. Nua sob cobertores imundos, ela trocou três parceiros em meia hora que passei ali. Tinha fila esperando atendimento.

Um sarará de bicicleta vaporiza o centro. Ele vai de mocó em mocó levando drogas. O vi rodando bastante. Na terceira volta me ofereceu uma pedra por R$ 5 e duas pelo cobertor. Na última, na frente do Santander, viu a câmera e fugiu de mim, só consegui uma foto tremida.

Na batalha

Os zumbis se queixam que apanham muito da PM. “Normal”, diz um bombado, catador de latinhas na Praça XV: “Eles querem respeito, nosso negócio é correr”.

Gutinho mostra um braço com cicatrizes, supostamente provocadas por pisões de um PM . O braço quebrou, o osso saiu pra fora e solidificou no ponto errado.

Jatinho mostra uma boca sem os dentes superiores: “Me arrancaram com chutes”, choraminga. Ele não lembra quando. Quem chutou: “Um PM e o porteiro lá de cima” – o zumbi aponta pros lados da Osmar Cunha.

Banco dos zumbis

Palmas para a política do Banco Itaú: suas agências são tolerantes com zumbis. “Tenho ordens de não mexer neles”, diz o porteiro da agência da Praça XV, indignado e resignado. Na filial em obras noturnas, dois zumbis (ou seriam apenas mendigos?) roncam numa boa, seguros.

Há uma certa ordem no comportamento errático da maioria dos zumbis pelas ruas. Embora pra nós eles pareçam caminhar sem rumo, andam numa linha invisível. E se enquadram nela na porrada. Quando eu disse que dormiria na Felipe, um deles me avisou do perigo: “Ali a PM não deixa”.

Não arrisquei. Fui só espiar a Felipe. Zero daquele burburinho da tarde. E só havia uma pessoa com jeito de zumbi. Era um negro sentado na frente do Magazine Luiza. Estava meio escondido por um latão de lixo.

Tomei um susto quando cheguei perto e senti a encarada dele. Parecia uma fera. Sujo como um bicho. Os lábios bem vermelhos, fazendo biquinhos. Ele repetia os movimentos da boca, então notei que eram involuntários. Babava. Tremia. Envergado, quase fetal, balançava o tronco.

Ele estava além do medo da PM. Venci o meu e tentei me aproximar. Puxei a câmera – mas algum sentimento que desconheço congelou meu dedo e não fiz o clic. Ele não tinha condições de ser entrevistado.

Já na praça 15, dei uma última olhada pra trás. O zumbi continuava se balançando. Dobrei a esquina da Panvel, em direção ao aterro.

Brothers na miséria

A Conselheiro Mafra na madruga em que eu fui estava deserta até onde se podia ver. Cadê as prostitutas e os michês ? Um taxista dá a explicação clássica da economia de mercado: a oferta de clientes estava baixa. “Venha no sábado e vai encontrar o que quiser”, disse o motora.

Cena da madrugada na Felipe, na frente das Americanas: dois carinhas, em calçadas e direções opostas. O das Americanas levanta o punho esquerdo cerrado e solta o grito: “Brother!” Lá do outro lado vem o berro “tudo”! Belo exemplo de camaradagem entre zumbis.

Altas horas, volto pro Senadinho. Ali eu tinha feito um pit stop e deixado minha quentinha numa mesa de xadrez, ainda com o arroz e feijão. Encontro o pote vazio. Vapt vupt, alguém passou e comeu até o último grão. Isto é pra gente saber que sempre tem alguém pior.

Sem o povo, os restos do dia estão espalhados. Perto das duas aparecem os carinhas da Comcap. Antônio Roberto, 27 anos na vassoura, comenta que “cada dia está pior, depois da lei que proibiu jogar lixo parece que as pessoas fazem de propósito”.

Um zumbi passa perto deste mendigo e do faxineiro repetindo um apelo patético: “Alô São Paulo, alô Vila Xavante, alô Rui, seu filho Giba procura pelo senhor.” Feito papagaio, sumiu na madruga procurando o pai perdido.

Nas trevas do aterro

Encarei o aterro e o Mercado Público. Dá um medinho. Tinha gente dormindo em tudo quanto era canto, vão e desvão. O pior lugar é perto de uma birosca de xis na frente da Ferragem Capital.

No chão imundo da birosca escondia-se um zumbi mais imundo ainda. Espiei e recuei, porque ele dava impressão que ia saltar na minha jugular.

Pensei: por que será que a Prefeitura não passa o trator neste lixo de birosca? Talvez o carinha achasse um canto mais confortável pra fumar, comer, c… e dormir! Já que não se pode fazer nada por ele, pelo menos limparia a rua.

Repensei: bastou algumas horas e já estou ficando insensível. Pra recuperar a humanidade, fui falar com os PMs do… Deprop. Deprop ?! Este nome deve ter sido bolado por alguém que fumou crack: Departamento de Prevenção e Restauração da Ordem Pública.

Imagine alguém dizendo “trabalho no Deprop”. Enfim, o ‘escritório’ é na Matriz, bem na frente do velho Besc. Desisti do papo humano ao saber que os PMs do Deprop são os chamados para enxotar os mendigos da escadaria.

Atordoado, voltei para a Praça XV. E quem eu encontro lá, quase quatro da madruga? Solitária, encolhida, parecendo um passarinho sem ninho. Dormindo na praça sem ser vagabunda, sem ser delinquente, apenas doente. Ela mesmo, a rainha da insignificância. A subgente: Zildinha.

E a cliquei. Imortalizei sua alma de zumbi em 16 megapixels.

Saí da praça. Caminhei até meu carro. Abri o porta-malas. Joguei cobertor e casacão sobre o saco de ração dos cachorros, imagem que me fez lembrar da Lili e da Laika – indicando que o cérebro já se desligava dos zumbis.

Admito: senti alívio ao pensar nos meus bichos. Na certa àquela hora estavam alimentados, limpos, quentinhos e abrigados na garagem, esperando minha volta pra casa.

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