Brasil concentra mais da metade dos assassinatos de pessoas trans, segundo a TransRespect

Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

Dado citado no programa de governo de Roberto Robaina, candidato ao Piratini pelo PSOL, consta em levantamento que monitora mortes de pessoas trans ao redor do mundo desde 2008. Em 2017, o estudo da organização TransRespect computou 325 casos em 27 países – 171 deles no Brasil.

Taís Seibt, do Filtro Fact-checking

O programa de governo registrado pelo candidato ao governo do Rio Grande do Sul pelo PSOL, Roberto Robaina, dedica uma seção à população LGBT. Na página 87, o documento disponível no portal de candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) introduz o tema, citando dados sobre a violência contra a população trans – e afirma que “o Brasil é responsável por 50% das mortes da população transexual no mundo”.

“O Brasil é responsável por 50% das mortes da população transexual no mundo”.

De acordo com a assessoria do partido, os dados são baseados no Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil, publicado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) em 2018, com dados referentes a 2017. O Truco nos Estados – projeto de checagem de fatos da Agência Pública, feito no RS em parceria com o Filtro Fact-checking – verificou que a fonte do Antra é um levantamento internacional feito pela ONG TransRespect.org.

Embora o programa do partido use o termo “transexual”, que é menos genérico do que “pessoas trans” – usado pela Antra ao se referir à pesquisa – é fato: o Brasil concentrou mais da metade das mortes de pessoas trans registradas no estudo da TransRespect, que computou 325 casos em 27 países, entre 1º de outubro de 2016 e 30 de setembro de 2017 – 30 ocorrências a mais do que na atualização anterior, referente ao mesmo período entre 2015 e 2016. A maioria dos assassinatos reportados ocorreu no Brasil: 171 casos, o que representa 52% do total. Na sequência, vêm México (56) e Estados Unidos (25). Tabelas associadas à divulgação mostram o número de casos por país em 2016-2017, também visível no mapa.

Fonte: TransRespect.org

Desde 2008, quando a TransRespect iniciou o levantamento, já foram contabilizados 2.609 assassinatos de pessoas trans em 71 países. Na série histórica, o Brasil também concentra a maior parte dos casos: 1.071, o que significa 42% do total de ocorrências entre 2008 e 2017.

Sobre a pesquisa

Com o projeto Trans Murder Monitoring (Monitoramento de assassinatos de pessoas trans), a ONG TransRespect monitora, coleta e analisa assassinatos de LGBTs reportados na internet. Uma atualização anual do levantamento é publicada sempre nas proximidades do Trans Day of Remembrance (Dia de Memória dos Transgêneros), celebrado em 20 de novembro. A data foi instituída em 1999, nos Estados Unidos, para lembrar transexuais e travestis assassinados.

Ao detalhar o método da pesquisa, a organização alerta que o cenário representa apenas um panorama da realidade, que pode ser muito mais grave, pois o levantamento considera apenas casos reportados na internet ou comunicados à ONG por ativistas locais. Há ainda a dificuldade do idioma e das diversas terminologias utilizadas para designar a população trans nos diferentes países, bem como o fato de nem todas as vítimas serem identificadas pelo gênero ao terem a morte noticiada na imprensa ou nas redes.

Também com base em casos noticiados ou comunicados por ativistas, a Antra, rede que articula em todo o Brasil mais de 200 instituições, contabilizou 179 assassinatos de pessoas trans no ano de 2017, sendo 169 travestis e mulheres transexuais e 10 homens trans. Destes, segundo o relatório da Antra, apenas em 18 casos (cerca de 10%) os suspeitos foram presos. A média de idade das vítimas é de 27,7 anos.

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