Apropriação cultural: procure saber

Recentemente tenho tido altos papos sobre a tal apropriação cultural. Muito tenho ouvido sobre “vitimização”, “liberdade de poder usar turbante” (negócio é SER LIVRE, né não?), “o que é homenagem, assimilação e apropriação” e, enfim, sobre o que o “sistema” tem a ver com isso.

Por Tiago Bianchi

 


Não vou me atrever a tecer eu mesmo um conceito, visto que tenho uma visão que prefiro embasar melhor, especialmente de forma bibliográfica, com o tempo. Sendo assim reuni alguns links aqui neste textooriginalmente publicado em minha conta do Facebook, de forma meio torta e corrida e agora levemente editado, com uma breve descrição do que cada um traz de mais importante para a discussão — contendo ainda breves espasmos de opinião:

Ana Maria Gonçalves, no The Intercept Brasil  Na polêmia sobre turbantes, é a branquitude que não quer assumir seu racismo

  • Atentem para a parte que a autora afirma que os negros vieram traficados e não podem sequer reconstituir sua árvore genealógica enquanto nós singelos descendentes de europeus podemos correr livremente atrás das nossas cidadanias europeias. Só isso já me foi o suficiente para explicar o porquê vale lutar por um turbante.

Djamila Ribeiro, na Revista AzMina — Apropriação cultural é um problema do sistema, não de indivíduos

  • Finalmente, do por quê apropriação cultural tem a ver com a estrutura econômica e social da nossa sociedade. Esse texto é muito importante, coloco-o em segundo lugar apenas porque o primeiro me trouxe alguns impactos pessoais mais fortes.

Stephanie Ribeiro, na Revista Capitolina — O que é apropriação cultural

  • Esse texto é DEMAIS porque é extremamente direto ao definir o que é apropriação. Fala sobre a origem do turbante e sobre globalização, diretamente ligado com o link acima. Tem um trechinho que inclusive cambaleou um argumento que eu próprio usava sobre o Noel Rosa ser branco e não ter transformado o samba em ritmo de branco — música, aliás, é um excelente campo pra entender como se dá a apropriação, na minha opinião;

Gabi Oliveira, no Papo de Pretas (vídeo) — Vai ter branca de turbante, sim

  • Sem falar sobre apropriação, essa militante ressalta que UM episódio abre uma ferida latente na sociedade — pense no que isso fala sobre a surdez e a resistência em abrir mão de um hábito;

Clarissa Wolf, no Catárticos – Racismo, turbante, o estigma do câncer e a geração do like

  • “Mas a menina tinha câncer!”. Então, essa autora, que é branca, também teve. Quatro vezes. E ela não estava infeliz porque não podia usar turbante, mas sim porque além da doença, estava acometida por um trato social que era MUITO mais suave que o racismo que os negros sofrem — imagine, pois, uma mulher negra que resolve reivindicar seu espaço ou herança cultural?;

Eliane Brum, no El País — De uma branca para a outra

  • Como supõe o título, é uma longa carta “de uma branca pra outra” — sim, dela para a própria menina confrontada por usar turbante. Traz uma discussão importantíssima sobre nossas origens, espaço e sobre “viver violentamente”. O problema desse texto é o seguinte: ele repercutiu muito mais e foi bem menos criticado que os três primeiros textos aqui indicados (aventurem-se nas sessões de comentários se estiverem com o psicológico devidamente preparado), que são escritos por mulheres negras, o que mostra o quão sintomático é a visibilidade, a surdez e o tal “vitimismo” referido anteriormente. Então aqui vale mais uma reflexão sobre ouvir os movimentos, especialmente, neste caso, o movimento negro, antes de falar de mimimi contra nossa linda liberdade;

Thomas V Conti: Apropriação cultural, uma história bibliográfica

  • Este último em específico que traz apenas uma reunião bibliográfica, dedicado especialmente para quem quer pesquisar academicamente sobre o tema, visto que o autor expressa diretamente não tecer opiniões no artigo.

Enfim, dedico essa lista a todos os amigos que conversaram, perguntaram e confrontaram ideias comigo. Boas leituras.

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