A língua de lavadeira é o fake news gaudério

As lavadeiras são  figuras que fazem parte da nossa cultura. Foto: arquivo pessoal

Bem antes de se popularizar o nome de Fake News (notícias falsas), no Rio Grande do  Sul existia um dito popular que significava a mesma coisa: a língua de lavadeira.

Por Carlos Wagner


 

No final dos anos 1980, eu fiz uma longa viagem pelo interior gaúcho em busca de uma explicação sobre de onde tinha saído a expressão “língua de lavadeira”.

Foi uma busca interessante. Na época, não encontrei trabalho cientifico algum sobre o assunto. A explicação estava nas histórias orais que são transmitidas de geração para geração. Claro.

Comecei conversando com as poucas e espalhadas lavadeiras em atividade. O tempo áureo da profissão tinha sido até o final da década de 1960, quando as máquinas de lavar roupa se popularizaram, e o preço tornou-se  acessível para  a maioria da população.

No tempo das lavadeiras, na Região Metropolitana de Porto Alegre, elas viviam em comunidades que moravam na beira dos rios. Na época, eu conversei com umas 20 lavadeiras, todas de mais de 60 anos, e que exerciam a profissão desde a adolescência.

A primeira com quem tive uma longa conversa foi com uma senhora que vivia em uma comunidade de lavadeiras próxima ao 9º Regimento de Cavalaria Blindada (9º RCB), em São Gabriel, cidade agropecuária na Fronteira Oeste.

Aqui cabe um comentário: até os anos 1980, as cidades da fronteira, como é o caso de São Gabriel, tinham um grande contingente de tropas e equipamentos militares. E a maioria dos soldados estava prestando o serviço militar obrigatório e vinha de várias cidades. Portanto, precisava de quem lavasse a roupa. Anos depois, vários desses contingente de militares e armamentos foram transferidos para o Amazonas, por conta de acordo entre países do Mercado Comum do Sul (Mercosul), que desmilitarizaram as fronteiras gaúchas com os castelhanos.

Não lembro o nome das lavadeiras com quem conversei em São Gabriel, afinal de contas lá se vão 30 e poucos anos. E também encontrar a reportagem no arquivo do jornal dá um baita trabalho. Mas lembro do conteúdo do que relatei.

As lavadeiras trabalhavam ajoelhadas em pedra plana e lisa na beira do rio. Sempre dava preferência nas minhas entrevistadas para as mais velhas do grupo. A conversa começava falando do clima, do preço do sabão e de coisas gerais. Lá no meio, puxava o assunto da fama da língua da lavadeira. Não lembro de alguma delas ter ficado braba com a lembrança. Muito pelo contrário. A conversa acabava em risada.

Um exame das peças de roupas

revelava o modo de  modo

de vida da família

Pelas conversas que tive com as lavadeiras, seus clientes e os historiadores, a fama nasceu pela natureza do ofício. Elas recebiam a roupa suja da família para lavar. Um exame das peças de roupas revelava o modo de  modo de vida da família. Principalmente, as roupas íntimas. Elas podiam dizer até com que frequência o casal mantinha relações sexuais.

“Roupa suja se lava em casa”

 

Lembro de outro dito popular: “roupa suja se lava em casa”. Na época, falavam que o dito era efeito colateral das línguas das lavadeiras.

Como elas trabalhavam em grupo, a conversa delas, geralmente, girava em torno do dono da “trouxa de roupa suja”.  Muitas dessas conversas das lavadeiras acabavam se tornando assunto na cidade. É claro.

Cada uma que contava uma história aumentava um pouco mais. Ou tornava a história mais engraçada. Principalmente, durante a disputa eleitoral nas eleições para prefeito e vereador.

Hoje, na era dos computadores, das viagens espaciais e da internet, no Rio Grande do Sul a lembrança da fama da língua das lavadeiras pertence a nossa cultura. No interior, especialmente nas fronteiras com os castelhanos, ainda se ouve muito a expressão: “mais  afiado que língua de lavadeira”.

Nas palestras que faço para estudantes de jornalismo, nas redações dos pequenos jornais pelo interior do Brasil, eu lembro a história da língua das lavadeiras para facilitar o entendimento do que é fake news.

Claro, a noticia falsa é elaborada de uma maneira profissional.  Mas o principio é o mesmo da língua da lavadeira. Lá em Encruzilhada do Sul, pequena cidade agrícola no Sul do Estado, há um dito popular que diz o seguinte: “deus me livre da língua das lavadeiras”. Hoje, nós podemos acrescentar: “e das fake news também”.

Deus me livre da língua das lavadeiras (…)

e das fake news também

 


 

Carlos Wagner é repórter, graduado em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul  (Ufrgs). Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP. Atualmente dá palestras sobre jornalismo, mantém um blogue e é colaborador da Pensamento.org.

Relacionados