O pensamento escravocrata brasileiro

William Waack se deu mal. Não surpreende. Como tantos outros “formadores de opinião” da grande imprensa. Já colecionava desafetos e já tinha levado algumas bordoadas ao vivo de colegas, devido ao tratamento estúpido que oferecia.

Mas fiquem atentos: tomou um gancho, vai ficar de escanteio e em seis meses está de volta com a bola toda. Quando ninguém mais lembrar do caso.

Por Tiago Lobo

A Folha, em uma das matérias mais boçais do jornalismo brasileiro, partiu em defesa do coleguinha. A Sheherazade então nem se fala. Queria atacar quem não gostou de ver o Waack cometendo um crime no backstage da TV, mas acabou pintando, com letrinhas, seu autoretrato.

O interessante disso tudo é a sociedade parar pra analisar em qual lado da tela, realmente, estão os “Homer Simpson’s”.

Todo mundo brinca, vez ou outra. Cresci ouvindo piadas de portugueses, loiras burras, gordos, “viadinhos” e “coisas de negões”. Mas, como disse, cresci. Aprendi que portugueses são culturalmente engraçados dentro da sua literalidade e que isso não os torna um povo burro, pelo contrário. Que loiras também não são burras, pois nunca ouvi falar de um “loiro burro”. Logo, a suposta ignorância baseada em algum nível de melanina acometeria apenas mulheres em uma sociedade machista e patriarcal, o que seria uma conveniência não-cientifica perfeita.

Entendi que não existe graça (pelo menos pra mim) em rir de pessoas que se amam, independente do que tragam entre as pernas e o que decidam fazer com elas. E que esse reacionarismo tem, na sua linha de frente, uma legião de machos mal-resolvidos com sua sexualidade e muito mais covardes do que qualquer homossexual que resolva se assumir (ou se libertar?), pois se aceitar como se é, com plena consciência do atraso intelectual do mundo lá fora, é, sim, um verdadeiro ato de coragem. Em prol de si mesmo, e, por consequência, em prol da sociedade.

E aprendi também que as coisas dos povos negros são fantásticas, mas a nossa hipocrisia branca que tenta viver resquícios de uma superioridade racial criada e imposta na base do ferro e fogo, prefere esquecer do Jazz, do Blues, do Soul, do Samba, de todos os ritmos da terra, dos rituais, da capoeira, do funk, do Disco, dos movimentos como o Hip Hop, e de tudo de bom que os negros criaram, pra poder fazer “graça”, reproduzindo uma ideia de que negros são burros.

William Waack ao falar com o desleixo e naturalidade que falou das “coisas de preto”, se portou não como um jornalista, que se compromete, em seu juramento, com a defesa da declaração universal dos direitos humanos. Waack teve, publicamente, a sua pior faceta revelada: a de um homem que pensa como seus antepassados, aqueles que foram senhores de escravos.

E eu sinto vergonha alheia por uma emissora manter em seu quadro uma pessoa tão intelectualmente limitada. Adeus, Homer.

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