Argentina, ecos e vozes: o pacificador, a ativista e o guerrilheiro

Argentina, ecos e vozes: o pacificador, a ativista e o guerrilheiro

Argentina, ecos e vozes: o pacificador, a ativista e o guerrilheiro

Por Marco Antônio Villalobos. De Buenos Aires, Argentina.

O que um pacificador, uma vovó ativista e um guerrilheiro poderiam ter em comum?

Nosso repórter, Marco Antônio Villalobos, foi até Buenos Aires para conhecer seus ecos e vozes.

 


 

O Prêmio Nobel da Paz de 1980 nunca foi tão atual. Adolfo Pérez Esquivel fala sobre ameaças a democracia, impeachment brasileiro e o risco de conflitos nucleares entre E.U.A e Coréia do Norte.

Já Rosa de Roisinblit é argentina, mulher, mãe, avó, e atua na liderança de
um grupo de mulheres que, como ela, investigam o paradeiro  de seus filhos e netos desaparecidos e mortos na brutal ditadura da Argentina, entre 1976 e 1983.

E o que dizer do guerrilheiro que passados 50 anos da sua morte continua como um símbolo que desperta amor, ódio, curiosidade e controvérsia? Ele seria Ernesto ou Che? Irmão ou Comandante?

Além de argentinos, as três personalidades são muito mais parecidas do que suas diferentes visões de mundo poderiam conceber: o apego a causa, a coragem, a obstinação e a vontade de mudar o mundo encontram no pacificador, na ativista e no guerrilheiro, os seus elos.

O pacificador
Adolfo Pérez Esquivel (Foto: R.F.K. Human Rights)

A resposta ao pedido de entrevista é a prova de que queremos falar com alguém que segue uma agenda carregada: “desculpe que seja tão corrido, mas ele só dispõe de meia hora para atendê-lo.”, escreve o assessor Luís Romero nos contatos prévios mantidos antes da viagem a Buenos Aires.

O “ele” a que nos referimos trata-se de uma das maiores referências internacionais quando o assunto são os Direitos Humanos. Adolfo Pérez Esquivel, idealizador do Serviço de Paz e Justiça (SERPAJ) e ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1980, em plena vigência da brutal ditadura militar argentina.

Neto de uma índia guarani, por parte de mãe, e filho de um imigrante espanhol, este arquiteto e escultor começou na década de 60 seu trabalho na organização de movimentos de base popular na América Latina. A defesa dos direitos fundamentais das pessoas cobrou seu preço. Em 1975 foi preso no Brasil e um ano depois foi detido no Equador. Mas o pior momento chegou em 1977, quando virou prisioneiro político por 14 meses, enfrentando durante este período sessões de tortura, uma das marcas registradas da ditadura em seu país.

Na pequena sala que ocupa no antigo casarão que abriga o SERPAJ Argentina, o movimento é febril. Um entra e sai de gente que não para um minuto até que finalmente somos chamados. A conversa com o ativista social de 86 anos vai de sua infância, passa por sua amizade com o Papa Francisco e chega a temas atuais como a diferente forma encontrada por golpistas nestes tempos de política apodrecida, e justiça e mídia muitas vezes seletivas.

Pensamento — Como e quando surgiu em sua vida esta preocupação pelos Direitos Humanos que levaram-no a receber o Prêmio Nobel?

Esquivel — Eu venho de um lugar muito pobre e desde cedo tive que trabalhar. Com doze anos comecei a trabalhar como jornaleiro. Desde muito pequeno ninguém me ensinou. Eu vivi. Um desses meninos que come um dia e não come dois. Foi uma tomada de consciência que foi crescendo com o tempo assim como minha arte. Tudo o que eu faço tem a ver com isso, não é algo que eu possa separar, por isso eu sigo.

Pensamento — Qual o papel da importância da mobilização dos organismos de Direitos Humanos para alcançar e manter as democracias?

Esquivel — As democracias voltaram ao continente condicionadas e restritas, mas aí começaram as mudanças porque há uma forte organização social a partir de órgãos de defesa dos direitos humanos, dos sindicatos e do movimentos sociais, como o MST no Brasil.

Pensamento — O que acha que ainda falta avançar nas políticas de direitos humanos na América Latina?

Esquivel — Temos avançado em políticas de direitos humanos no campo jurídico e na educação, para gerar nos povos a consciência sobre o que são a democracia e os direitos humanos como valores indivisíveis. Desde este ponto temos percorrido um caminho ainda não suficiente porque até hoje ainda há violações. Não há intervenção das forças armadas, porém, sim, há golpes de estado encobertos.

Pensamento — O que aconteceu no Brasil como a presidente Dilma Rousseff se enquadra nesta tendência?

Esquivel — Sim. Olha o que aconteceu em Honduras em 2009 quando derrubaram o presidente Manuel Zelaya, que foi obrigado a deixar o país. Veja o Paraguai onde em menos de 48 horas o Congresso votou um processo relâmpago de impeachment contra o presidente Fernando Lugo. O caso de Dilma Roussef também é claro. Então o golpismo e o autoritarismo estão de volta e vamos perdendo as conquistas sociais como agora no Brasil. Conquistas que foram dos povos e de governos progressistas.

 

O golpismo e o autoritarismo

estão de volta e vamos perdendo

as conquistas sociais

 

Pensamento — E o senhor acredita que existe uma fórmula para mudar esta situação?

Esquivel — A única forma de mudar é a presença dos povos em busca de novas formas de fazer política. Passar desta política onde o povo delega poder para os governantes para a democracia participativa, onde o povo não entregue todo poder aos governantes para não ficar indefeso. Um povo que tenha ferramentas constitucionais e jurídicas para evitar o que aconteceu no Brasil.

Pensamento — O Brasil vive uma de suas maiores crises e um dos reflexos é o aumento expressivo da violência urbana. Este fenômeno é muito usado, especialmente por quem usa o discurso fácil e messiânico. São políticos, candidatos, parlamentares e mesmo uma boa parcela da população que simplificam a questão e definem quem defende os direitos humanos como comunista. Como o Senhor responde a estas colocações?

Esquivel — Existe toda uma campanha para dizer que quem defende os direitos humanos é comunista. Eu pergunto: o que é o Comunismo hoje? O Comunismo se desintegrou com a queda do muro de Berlim. Claro que pode ter alguns que possam ter ideias comunistas, mas o primeiro comunista foi Jesus. A primeira coisa que ele fez foi começar a divisão por sua própria comunidade, a comunidade dos apóstolos. Todos compartilhavam tudo. Havia muita solidariedade entre eles e por isso se fala em comunidade. Daí vem o nome Comunismo.

Pensamento — O senhor sempre foi muito ligado à Igreja Católica. Como avalia o pontificado de seu conterrâneo, o Papa Francisco?

Esquivel — Eu quanto vou a Roma sempre me encontro com Francisco. Não é um homem só da espiritualidade. É um homem consciente também. É uma pessoa política, então trata de avançar em direção a uma igreja que se ocupe dos pobres, dos mais necessitados, dos marginalizados e é uma voz que se escuta no mundo inteiro por sua coerência. Quando ele fala da questão dos refugiados não só fala, mas vai. É um pastor. Vai à ilha de Lampedusa na Itália. Vai à ilha de Lesbos na Grécia para chamar à consciência os governantes da Europa. Reúne-se muito com os jovens para dar-lhes mensagens de esperança e não de derrota e trata de mudar as estruturas de uma igreja que é muito rica e que não compartilha muitas coisas. Entendo que as pessoas começam a reconhecê-lo como um irmão que busca os caminhos da paz, da unidade dos povos.

 

(…) amando, tendo esperança, solidariedade.

É a única forma para que este mundo sobreviva

 

Pensamento — O mundo mais uma vez enfrenta a ameaça de conflitos inclusive nucleares. A escalada bélica não para de crescer. Qual a sua avaliação sobre este tipo de problema que ameaça a humanidade?

Esquivel — Trump agora quer invadir a Venezuela. Trump quer jogar bomba atômica na Coréia do Norte. A Coréia do Norte quer jogar bomba atômica na base americana de Guam. Isto é uma loucura total. Isto é ódio, violência, destruição, isto não é a vida. Nós estamos aqui para honrar a vida não para destruí-la e creio que por aí podemos criar novas possibilidades para todos. Se nós passamos pela vida destruindo o que se constrói, o mundo não tem futuro. Temos que passar pela vida amando, tendo esperança, solidariedade. Esta é a única forma que temos para que este mundo sobreviva a toda barbaridade que estamos cometendo. Todas estas guerras, estas mortes causadas pelas superpotências que depois falam em liberdade e democracia. É uma hipocrisia total.

Os trinta minutos da entrevista espremidos em meio a sempre carregada agenda de Esquivel estão acabando. Mas antes de levantar, o Prêmio Nobel da Paz ainda tem tempo de dar uma receita de vida para quem sempre se doou para os outros sem pedir nada em troca.

“O pior que pode acontecer na vida de alguém é passar com as mãos vazias. Temos que passar pela vida com as mãos cheias de esperança, de solidariedade, de serviço para quem precisa”.

Esquivel mal tem tempo para despedidas. Coloca sua boina e pede licença para sair, rapidamente, rumo ao Aeroparque, um dos dois aeroportos de Buenos Aires. Mendoza, no norte do país, espera-o para várias atividades: afinal é preciso servir a quem precisa.

A ativista

Ao contrário do que seria perfeitamente compreensível não encontro uma senhora com o pensamento já debilitado pela idade. Muito menos uma vovó tradicional, daquelas que se ocupam fazendo roupinhas de tricô para os netos, ou melhor, neste caso, para os bisnetos.

Foto: Rodrigo Villalobos / Pensamento.org

Amparada por uma bengala, dona Rosa de Roisinblit entra na sala de seu apartamento onde nos recebe, e, sem meias palavras, mostra sua contrariedade: “jornalista é assim. Vão entrando na vida da gente e ainda por cima marcam para chegar às três da tarde e chegam quase meia hora antes.”

É verdade, confesso. Sou culpado. A correria na enorme metrópole onde mais dois entrevistados nos esperam em um curto espaço de tempo fez com que o repórter apostasse que do alto de seus 98 anos, ela não ia se dar conta deste detalhe do horário. Por sorte, a “bronca” durou pouco, pois quando se é mais do que uma avó, uma bisavó, “hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás”.

Motivos para ser uma pessoa amarga Dona Rosa teria de sobra, afinal ela é uma das milhares de mães argentinas que tiveram seus filhos desaparecidos e mortos na brutal ditadura enfrentada por nossos vizinhos entre 1976 e 1983. Hoje, organismos de defesa dos direitos humanos calculam que a política genocida instaurada custou a vida de pelo menos 30 mil pessoas. Mas é preciso deixar a amargura de lado e canalizar os esforços para ações duras, porém necessárias. Cobrar, protestar investigar, procurar, procurar sempre.

Buscar a resposta definitiva que acabe com um sofrimento de mais de 40 anos. É assim com Dona Rosa. E é assim com suas colegas Madres e Abuelas de Plaza de Mayo. Desistir jamais.

Bebês roubados

O autodenominado Processo de Reorganização Nacional chegou ao poder através de um golpe de estado no dia 24 de março de 1976.

Nos principais centros de detenção da ditadura como a ESMA (Escola de Mecânica da Armada), Campo de Mayo e Pozo de Banfield, além de vários outros, funcionaram maternidades clandestinas. Pelo menos 500 mulheres foram sequestradas e levadas para estes centros. Muitas delas estavam grávidas e outras tinham filhos pequenos.

Os bebês, depois das mães serem assassinadas, eram entregues diretamente a famílias de militares, enquanto que outros eram abandonados em orfanatos e alguns até mesmo vendidos. Como regra, todas estas crianças tiveram a identidade anulada, foram privados de viver com a família de sangue e também tiveram seus direitos e liberdade violados.

Junto com as Madres, as Abuelas da Plaza de Mayo, que completam 40 anos de luta, seguem buscando os filhos de seus filhos. A procura e o protesto com as tradicionais marchas pela praça em frente à Casa Rosada, sede do governo argentino, também incluem um trabalho detetivesco, visitas diárias a orfanatos, juizados de menores e escritórios públicos. Os resultados surgem aos poucos. Até agora foram recuperados mais de 120 netos, todos, hoje, na faixa etária dos 40 anos.

Dona Rosa, vice-presidente de Abuelas de Plaza de Mayo, explica que tudo começou quando as mães que tiveram suas filhas presas em estado de gravidez começaram a se dar conta que os bebês não seriam devolvidos. Desta forma, toda Abuela também é uma Madre da Plaza de Mayo.

“O meu calvário começou em outubro de 1978, quando minha filha Patrícia, grávida de oito meses, e seu marido José Manuel Pérez, os dois com 22 anos, foram sequestrados por um comando da força aérea. Eu fiquei preocupada pelo nascimento do bebê e aí comecei a procura. Não me transformei numa “montenera” (organização político-militar argentina que participou da luta armada contra ditadura). Eu era apenas uma mãe e avó atrás de minha filha e neto.”

O filho do casal, Guillermo, nasceu em 15 de novembro de 1978 no prédio da Esma, onde cinco mil pessoas foram presas e sumiram durante os oito anos da ditadura. 21 anos depois de viver com a família de um funcionário civil da força aérea, Guillermo descobriu suas origens.

A irmã de Guillermo, Mariana, trabalhava junto com as avós quando recebeu uma chamada telefônica com informações que seriam sobre o caso de seus pais. Na mesma tarde, em abril de 2000, seu irmão esteve na sede de Abuelas e os exames de sangue comprovaram que ele era o filho do casal desaparecido. Rosa estava nos Estados Unidos recebendo o titulo de Doutor Honoris Causa da Universidade de Massachusetts, em Boston, e logo retornou. Mas na chegada enfrentou alguns problemas. “Quando cheguei na Argentina encontrei um menino de 1,89m e falei: “bem, eu sou tua avó, e ele respondeu displicentemente.”

Durante algum tempo Guillermo não queria ver sua avó. Na tentativa de aproximação Rosa telefonava e recebia como resposta uma pergunta: “por que me telefona? Não quero te conhecer, não quero te ver.” Mas havia um detalhe: o neto não cortava a ligação. A avó insistiu com os telefonemas até o dia em que cansou da situação e fez a pergunta que trouxe efetivamente Guillermo voltar de vez para família da qual fora privada de viver. “Me diz uma coisa: esta senhora que tu chamas de mamãe, é filha de quem?”. Foi o click que faltava para Guillermo entender que contra a verdade não se pode lutar.

Caminhada que continua

Rosa Roisinblit destaca que era bem mais jovem quando se integrou a Mães e Avós. “São quase 40 anos buscando minha filha porque apesar de ter encontrado meu neto já se passaram tantos anos e eu não sei o que aconteceu com ela”.

Hoje as avós são reconhecidas, respeitadas e admiradas em todo mundo. Nem sempre foi assim: “no início éramos tratadas desrespeitosamente pelos donos do poder como ‘las locas de la Plaza de Mayo’”.

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É possível imaginar que somente “loucas” teriam coragem de desafiar uma das mais sanguinárias ditaduras da história. Loucas de coragem, certamente.

“Eu mesmo me apresentei na justiça contra a privação ilegal da liberdade de minha filha sem dar-me conta que apresentar-me na justiça naquele tempo poderia me transformar também em uma desaparecida.”

A resposta sobre como conseguiu coragem para isso é instantânea: “o que acontece na hora é que o amor por um filho ou por um neto ultrapassa o medo e a injustiça”, afinal como não cansam de repetir as Madres e Abuelas:

 

A vida abre caminhos
A vida traz esperança
A vida é um compromisso
A vida encontra a vida

 

Está na hora de ir embora, afinal lembram que falei que ainda havia dois entrevistados esperando na imensa capital portenha?

Foto: Rodrigo Villalobos / Pensamento.org

Para Rosa Roisinblit eu posso ter sido apenas mais um entre tantos repórteres que já lhe entrevistaram para saber como é ser uma lutadora pela vida. Para este repórter, ela, aos 98 anos, transformou-se a partir deste encontro, na avó de todos os netos.

 

O Guerrilheiro

“Ele como o irmão, 15 anos mais velho, não era daqueles que queria ser como teu pai ou do tipo que fica o tempo inteiro te controlando. Pelo contrário. Era um companheiro, um amigo com quem se divertir.”

A frase poderia definir apenas uma forma de relação existente em várias famílias, a diferença é que não estamos falando de um irmão qualquer. O depoimento de Juan Martin é sobre ninguém menos do que um símbolo para milhões de pessoas, por várias gerações, nos quatro cantos do mundo: o mítico Ernesto Guevara de la Serna, o Comandante Che.

O simpático e falante Juan nos recebe em seu pequeno escritório no coração de Buenos Aires, na esquina das avenidas Corrientes e 9 de Julho. Com 74 anos, ele é o mais novo de cinco irmãos (além de mais três do segundo casamento do pai). Logo no início da conversa explica que ser irmão de um personagem que povoa a imaginação de todos os românticos que sonham com um mundo mais igual, mas que ao mesmo tempo é motivo de ódio para quem prefere manter as desigualdades, não é ser o irmão de qualquer um.

Foto: Rodrigo Villalobos / Pensamento.org

“Ser irmão do Che é sempre chamar atenção.” Isto há muito tempo faz parte de seu dia a dia. “Quando me apresentam para alguém e anunciam que sou irmão do Che vem a surpresa acompanhada da indefectível pergunta: mas irmão de pai e mãe?”, Juan conta que em seguida muitos ainda ficam em dúvida e fazem uma espécie de teste visual o revisando de cima a baixo, muitas vezes, “pensando, acho eu: mas ele não pode ser irmão do Che.”

 

Ser o irmão do Che é
sempre chamar atenção

 

O revolucionário deve muito da sua forma de pensar e agir em função das circunstâncias de sua família, somadas ao contexto internacional de um mundo onde a Guerra Fria se mostrava cada dia mais quente. “Nossa família era muito ativa politicamente do ponto de vista da discussão, da abertura e de estar discutindo sempre o que estava acontecendo em todo o cenário mundial”, destaca Juan.

A América Latina garroteada por ditaduras ou, no mínimo, por regimes que flertavam abertamente com a falta de liberdade, cobrou um alto preço para quem levava na assinatura o sobrenome Guevara. Não são poucas e muito menos agradáveis as lembranças de Juan. Na Argentina, depois da década de 30, virou moda a predominância de governos que nem de perto poderiam ser considerados democráticos. “Para nós as coisas pioraram a partir do momento em que o Che se envolveu na Revolução Cubana”.

Na década de 60 a residência dos Guevara, em Buenos Aires, sofreu atentados com bombas e também foi metralhada.

“Na minha casa nunca houve espaço para ideias conservadoras. Era uma casa muito politizada, mas não por um partido especificamente”.

Exemplos de luta são fáceis de encontrar entre os Guevara. Um tio lutou em uma Brigada Internacional a favor da República e contra o fascismo na Guerra Civil Espanhola; a mãe sempre foi solidária com as lutas populares; o pai, um tipo que rompia com os esquemas tradicionais da época; o irmão Roberto foi preso no México, e Juan, por mais de oito anos, foi o prisioneiro número 449 da ditadura argentina.

A vitória dos “barbudos” com a fuga do ditador cubano Fulgêncio Batista para os Estados Unidos no primeiro dia de 1959 proporcionou o tão esperado encontro de toda família em sete anos. Juan não via o irmão desde 1953, quando ele estava entre a Guatemala e o México em mais uma de suas frequentes viagens. Em Havana, onde o povo comemorava o final de uma ditadura que deixou pelo menos 20 mil mortos, percebeu uma grande mudança. “As lutas revolucionárias dele fizeram com que eu deixasse um irmão e encontrasse um comandante”. Juan tinha que tratar Che como comandante, mas no pouco tempo que conseguiam ficar sozinhos a conversa era com o Ernesto. “Era um bate-papo com muita alegria quando ele me perguntava coisas de Buenos Aires e mostrava também sua preocupação sobre o que eu gostaria de fazer de minha vida”.

 

Nossa família era  muito ativa politicamente
do ponto de vista da discussão

 

O sorriso se abre, e nem os 58 anos que separam 1959 de 2017 conseguem diminuir o brilho nos olhos de Juan ao lembrar, como se fosse um filme, daquele momento único vivido pelos cubanos.

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Estavam em um hotel que se chamava Hilton e agora é Habana Libre. O térreo era como se fosse um quartel general dos revolucionários: todos ali com seus uniformes esfarrapados pelas lutas que enfrentaram na serra. De repente passa por ali Errol Flynn, um dos grandes artista da história do cinema, lado a lado com um grupo de guerrilheiros. “Eu acho que ele não estava entendo nada”, lembra Juan.

Mas o tempo de sorrir durou pouco para família e mais uma vez o Che cometeu o que era avaliado como um erro por seu companheiro de luta, Fidel Castro. Juan reforça que o cubano sempre dizia que “Guevara não deveria meter-se de peito aberto em tudo.” Passados 50 anos de sua morte o que para Fidel foi uma falha, para o irmão do Che não deixa de ser uma virtude. “Os dirigentes devem se envolver diretamente na luta, meter os peitos. Quem manda nos outros são os políticos. Estar na frente, como ele sempre esteve, também é saber que pode morrer e foi isto que aconteceu”. Para Juan, o erro cometido por Guevara foi ter confiado no Partido Comunista Boliviano que, por estar seguindo a linha política e estratégica utilizada na época pela União Soviética, acabou traindo o revolucionário argentino.

Um dia era verdade

Falta de apuração adequada, estratégia para vender jornal e até mesmo desejo de uma imprensa cuja linha editorial se misturava com os ideais das ditaduras que vigoravam na época. Qualquer que seja o motivo, o certo é que se dependesse de parte da mídia, Ernesto Che Guevara seria o homem que morreu várias vezes.

Juan destaca que as notícias eram as mais alarmantes possíveis: “todo grupo aniquilado e entre eles sempre um médico argentino.”

Mas no dia 9 de outubro de 1967, a informação era correta. Depois ter sido capturado pelos Rangers, grupo de elite do exército boliviano, treinado e assessorado por americanos, no dia anterior, durante um combate no vilarejo de La Higuera, Guevara foi executado com uma rajada de metralhadora no interior de uma pequena escola local. A ordem partiu do próprio presidente da Bolívia, general René Barrientos.

Juan lembra como se fosse hoje.

“Dia 10 eu estava saindo bem cedo para o trabalho quando chegou a notícia e junto com ela as fotos. Eu logo reconheci que era ele”.

Por ser o irmão mais velho, e também pela condição de advogado, Roberto Guevara viajou para o reconhecer e providenciar a volta do corpo para Argentina. A viagem não surtiu o efeito desejado. O chefe militar local disse que não havia corpo e que a solução só poderia ser dada pelas autoridades em La Paz. Na capital, Roberto recebeu a informação que o corpo já estava enterrado. Juan conta que o irmão respondeu que se o corpo estava enterrado e ele não pudesse vê-lo então consideraria que não era o Che.

 

As lutas dele fizeram com que eu deixasse
um irmão e encontrasse um comandante

 

Qualquer dúvida que ainda pudesse existir acabou quando os cubanos confirmaram a morte. Guevara foi enterrado junto com outros sete guerrilheiros em uma cova anônima ao lado da pista do pequeno aeroporto de Vallegrande. Durante 30 anos o local de seu sepultamento foi mantido sob o mais absoluto sigilo, que acabou sendo quebrado por um general reformado do exército boliviano. Após escavações, peritos argentinos e cubanos encontraram os restos mortais que hoje estão enterrados em um mausoléu na cidade cubana de Santa Clara, onde pela última vez os dois amigos revolucionários Fidel e Che se encontraram em 1966.

 

Missão cumprida

As paredes do escritório de Juan cobertas com fotos e cartazes do irmão são a prova contundente de sua admiração, comum a milhões de pessoas em todo mundo. A relação familiar certamente garante uma situação muito especial: “para mim, Ernesto é meu irmão de sangue. Che é meu companheiro de ideias.” O legado ele define como as melhores alternativas que surgem a partir do pensamento e da forma de agir do irmão.

“Em 63 ele disse: somos marxistas porque é o mais próximo que se chega hoje em análise social e política.” Juan defende que também as novas gerações devem pensar no marxismo, no leninismo e no guevarismo como forma de alcançar o que seu irmão definia como o Homem Novo, um revolucionário que deve trabalhar toda sua vida em nome do bem estar social.

 

Ernesto é meu irmão de sangue,
Che é meu companheiro de ideias

 

Como guevarista, deseja: “O feudalismo esperou mil anos para ser derrubado pelas revoluções burguesas. A esperança é que não tenhamos que esperar até 2600 para que termine este sistema de domínio globalizado”. O caminho foi apresentado pelo Che que segundo Juan “se definiu marxista, leninista e só não se declarou guevarista apenas por um detalhe. Ele era Che Guevara”.