Crime na sala de aula

Imagem obtida pelo circuito interno de vigilância da PUCRS

Foi um golpe duro no espírito dos estudantes e da professora de uma renomada universidade brasileira ser feitos de reféns da ignorância alheia dentro de um ambiente de estudo. Eles ficaram dez minutos sob a mira de um revolver e trocaram celulares, tablets e notebooks pela própria vida.
Foi por um triz que ninguém saiu ferido.

Por Tiago Lobo


A reação das pessoas que ouviram o boato, na noite do dia 02/09/2013, de que um homem armado havia assaltado estudantes dentro de uma das instituições acadêmicas mais poderosas do país não era somente surpresa, mas uma dúvida: como isso pôde acontecer?

Eram 22h15min daquela segunda-feira. O crime desenrolou-se na sala 312, no terceiro andar do prédio do curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), no campus de Porto Alegre.

Um homem entrou na sala de aula e ficou parado na porta encarando os estudantes. O relato das vítimas foi unânime. Ninguém entendia o que o sujeito fazia ali. Sua intenção veio à tona após uma troca de olhares com um aluno: “O que tu tá me olhando? Não posso ficar aqui? Quer saber, fica quieto, isso é um assalto e não quero ninguém reagindo”, foram as palavras de comando do assaltante segundos antes de sacar um revolver preto da cintura e apontar para 22 jovens que assistiam uma apresentação de colegas.

“Quando ele anunciou o assalto todo mundo se olhou e alguém ainda disse ‘ mas eu estou na aula’”. Conta a estudante Caroline Frantz, 25 anos. Única testemunha que permitiu que seu nome fosse divulgado. Segundo ela o silêncio tomou conta do ambiente enquanto alguns balbuciavam frases perdidas entre medo e surpresa.

As vítimas foram obrigadas a depositar dinheiro, cerca de 20 celulares e notebooks em uma mochila que o homem deixou em cima de uma mesa. Mas a história não termina aqui. Durante os minutos em que foram reféns os alunos eram agredidos verbalmente pelo assaltante. É de Caroline o relato da situação: “a sensação dele nos xingando era muito pior por ele estar armado, era como um soco na cara”.

A estudante revela, também, que o sujeito mexia no celular constantemente e chegou a dizer que teria comparsas esperando do lado da fora da universidade. Mesmo sem apontar o revolver diretamente para os alunos, ele fazia movimentos com a arma que causavam pânico e teria chegado a girar o tambor do revolver. Existe a suspeita de que o homem estivesse drogado, pela tranquilidade com que agiu, mas a ideia divide opiniões entre as vítimas.

O estrago poderia ser pior. A turma estava com a metade dos alunos, pois naquele instante acontecia uma palestra no auditório da universidade. A professora e jornalista Roberta Mânica, que conduzia a turma, tentou acalmar os ânimos, mas houve momentos de tensão quando um estudante negou-se a entregar um notebook. Ele estava no fundo da sala com o computador fechado sobre a classe, o assaltante viu e resmungou para ele entregar o aparelho. O estudante se levantou e disse que “não”, ao passo que a turma pedia “pelo amor de Deus”, para que ele cumprisse as ordens do criminoso. O impasse gerou um princípio de tumulto. Era o sinal de que a hora de fugir havia chegado.

A ação toda durou menos de 10 minutos e assim que roubou tudo o que podia, o bandido saiu da sala deixando instruções às vítimas e uma ponta de racismo: “esperem 30 minutos, liguem pra polícia e digam que foram dois ‘negão’ que assaltaram vocês”.

Todos estavam em pânico na sala 312. As vítimas se encolhiam umas contra as outras, em posição fetal, sentadas no chão do fundo da sala. Um colega propôs chavear a porta, outro queria sair para chamar alguém, mas foi impedido. Um ou outro permaneceram de pé. Foi a professora que, após alguns minutos, começou a disparar ligações pedindo ajuda, em consenso com os alunos. A resposta da instituição foi dois seguranças 10 minutos depois. Eles pediram a descrição do assaltante, uma lista com nomes, matrículas e pertences roubados. Há relatos de que um deles pensou que a história era brincadeira. A polícia militar foi acionada e os alunos orientados a registrarem Boletins de Ocorrência individuais ou em grupo, em qualquer delegacia da cidade.

Segundo os depoimentos o homem teria por volta de 25 anos, 1,70m, pele parda, vestia um moletom cinza da marca “Vans” (grife de Skate onde a peça não custa menos de R$130,00, chegando fácil aos R$300,00), calça azul, tênis esportivo e carregava um revolver preto calibre 38. Aquele aluno que discutiu com o assaltante e não entregou seu notebook jura que a arma era de brinquedo, mesmo tendo permanecido o tempo todo no fundo de uma sala com capacidade para 50 a 60 alunos e admitindo para alguns colegas que negligencia o uso de óculos. No dia 03/09 ele publicou uma nota se desculpando com os colegas e afirmando “ter agido por impulso”.

O curioso é que o suspeito já perambulava livremente pelos corredores da universidade desde as 21h30min e levantava suspeitas de alunos: “era um cara bem diferente do que estamos acostumados a ver na Famecos. Ele estava desde o inicio da aula no corredor andando de um lado pro outro”, explica uma estudante em sua página do Facebook. Ela conta que ficou desconfiada e tentou alertar a secretaria da instituição, mas desistiu devido a brincadeiras dos colegas. Se alguém abordava o sujeito ele dizia que estava “esperando o irmão”.

Quem investigou o caso foi o delegado titular da 11ª Delegacia de Polícia, Francisco Antoniuk. Para o delegado o suspeito captado pelas câmeras de segurança da faculdade parecia “mais um estudante”. A polícia trabalhava com a hipótese de que o suspeito já conhecia a faculdade, o que não parecia fazer muito sentido. Acompanha: as câmeras registram o suspeito passando pela entrada principal da universidade às 21h27min. Três minutos depois ele chega à faculdade de comunicação. A Famecos é o prédio mais próximo da entrada principal da PUCRS. Ele fica perambulando pelos corredores durante 45 minutos até invadir a sala de aula e anunciar o assalto. Sai da universidade às 22h24min. Além disso, o suspeito é visto nas gravações checando murais pelas escadas e observando corredores como se estivesse reconhecendo o terreno.

Problemas na segurança

Conversei com um profissional da área e pedi que fizesse uma análise do caso. O detetive Ábacus, investigador particular renomado, com 35 anos de mercado, especialista em segurança e com alguns casos de homicídios solucionados é direto em sua opinião: “sem dúvida foi falha na segurança da PUCRS”. E ele entende do assunto. Na semana em que conversamos ele acabara de ser contratado por uma universidade paulista para checar falhas no sistema de segurança.

A faculdade de comunicação social (Famecos), assim como diversas outras unidades da PUCRS, mantém seu acesso livre para transeuntes, o que facilita a ação de um criminoso. A justificativa da universidade de que o Campus serve de acesso entre duas avenidas movimentadas é balela: a PUCRS é uma instituição privada. Além de não possuir um sistema de identificação que permita saber quem entra e sai da instituição, os seguranças não costumavam circular dentro dos prédios. Mais: documentos de identificação só são exigidos para acessar os laboratórios. Este acesso acontece por meio de um cartão magnético, onde consta apenas o nome e matrícula do aluno. Nada de foto. Tanto que é comum colegas emprestarem seus cartões para terceiros, mesmo que exista punição quando a prática é flagrada. As 314 câmeras de vigilância espalhadas pela cidade universitária acabam como mera ferramenta de coleta de imagens no mar superior a 350mil m² do campus onde funcionam 22 faculdades, dez institutos, oito órgãos suplementares e uma enorme biblioteca que são frequentadas por mais de 30 mil alunos, 1,5 mil professores e cinco mil funcionários. Quem cuida de tudo isso? 130 seguranças.

A resposta veio tarde

Até às 9h do dia 03/09 o site da instituição marista era um mar de tranquilidade.

A PUCRS ainda não havia se manifestado oficialmente ou dado qualquer tipo de suporte aos estudantes. Sua primeira atitude foi publicar uma “nota de esclarecimento” às 9h30, praticamente escondida e sem explicar o que havia acontecido. Dois parágrafos burocráticos:

“A PUCRS lamenta o ocorrido na noite de ontem, 2 de setembro de 2013, no prédio da Faculdade de Comunicação Social. A segurança da comunidade universitária é uma prioridade para a PUCRS e, neste sentido, a Instituição dispõe de um sistema integrado de segurança compreendendo câmeras e vigilantes 24 horas por dia por toda a extensão do Campus Universitário.

A PUCRS já cientificou à Brigada Militar ainda na noite de ontem e está encaminhando à 11ª Delegacia de Polícia Civil, hoje pela manhã, os materiais relativos ao fato ocorrido para a investigação criminal, colaborando para o esclarecimento do mesmo.”

Em seguida baixaram a censura sobre os professores (muitos deles jornalistas) da faculdade assaltada. Ninguém podia dar entrevista e só a assessoria de comunicação da PUCRS poderia falar sobre o assunto. Todas as informações solicitadas via assessoria não passavam do primeiro e-mail.

Na mesma tarde a universidade publicou outra nota direcionada aos estudantes onde classificava o “ocorrido” como “fato excepcional”.

Vale lembrar que na noite de 20 de novembro de 2012 três homens armados, em duas motocicletas, renderam funcionários da administração do estacionamento da PUCRS e levaram três celulares e 1,5 mil reais. Ninguém foi preso.

Alunos revoltados

Um grupo de alunos procurou o coordenador da faculdade para conversar e a reitoria convocou uma reunião a portas fechadas com as vítimas, às 18h do dia 03/09, solicitando a presença dos pais dos alunos. Isso aconteceu no prédio 40, na sala 409, e a instituição tratou de levar uma tropa eficaz: uma coordenadora de assuntos financeiros, um chefe de segurança, três assessoras de comunicação, uma psicóloga e o diretor da Faculdade de Comunicação Social, João Guilherme Barone que abriu a reunião dizendo que estava “triste com o acontecido, pois a Famecos é a nossa casa”. Um aluno se retirou irritado com o discurso pró-establishment. Logo a bola passou para a responsável pelo setor financeiro que informou que a faculdade ressarciria os alunos e que disponibilizariam uma psicóloga para acompanhar os que sentissem necessidade. O momento mais delicado foi quando membros da reitoria teriam dito que sabiam como as vítimas se sentiam. Em geral foi um espaço aberto para o diálogo que se estendeu até às 19h15min. Os alunos tiveram a oportunidade de questionar, argumentar e propor alternativas para que o episódio não se repita, mas não agradou todo mundo como explica um aluno que não quis se identificar: “não acho que tiveram uma postura legal, parecia que estavam nos fazendo um favor”.

O clima na universidade foi de surpresa, medo e indignação. Alunos e professores custaram a acreditar no fato. Um grupo convocou manifestações nas redes sociais exigindo mais segurança e em horas reuniu mais de mil membros dispostos a debater o problema. Mas quando o povo saiu da web não arrematou mais do que 15 pessoas. Os alunos sugeriam a implantação de catracas na entrada das universidades como forma de sentirem-se mais seguros, acontece que esta medida é inviável já que a faculdade não dispõe de saída de emergência. A universidade intensificou as rondas dos vigilantes e iniciou um estudo para melhorar a segurança mas diz que a medida só virá no longo prazo. Mais de um ano depois, o “longo prazo” ainda não terminou.

A prisão de Jonas

No dia seguinte ao assalto a PUCRS tratou de entregar as gravações das câmeras de segurança para a polícia. O delegado Antônio Vicente Nunes, chefe do Departamento de Polícia Metropolitana (DPM) afirmou que a prisão do suspeito era uma questão de honra. Só não especificou pra quem.

O trabalho dos investigadores começou monitorando todos os envolvidos em assaltos que estavam soltos ou foragidos. Chegaram, por acaso, a Jonas Correa de Oliveira. Foi assim: uma operação de rotina da Delegacia de Capturas da Polícia Civil, em Porto Alegre, três dias após o crime, encarcerou o assaltante. Neste meio tempo a 11ª Delegacia de Polícia Civil (DP), responsável pela investigação, tomou conhecimento da prisão realizada pela Delegacia de Capturas. Quando conferiram as fotos do preso viram que batiam com as imagens das câmeras de segurança da PUCRS. Então quatro vítimas foram chamadas para fazer o reconhecimento do suspeito. Bingo: era ele.

A informação vazou via redes sociais, com a postagem de uma das quatro primeiras vítimas que reconheceram Jonas. Isso fez com que o delegado Francisco Antoniuk antecipasse a divulgação oficial da prisão, visto que a intenção era divulgar após ouvir as outras vítimas.

Uma história de crimes

O delegado Antoniuk não teve dúvidas sobre a autoria do crime: “nós temos vítimas, temos imagem, uma autoria conhecida, vamos agora formalizar através de depoimentos e submeter ao crivo do Judiciário e Ministério Público. Ele é o autor”.

Jonas, aos 26 anos, negava ser o assaltante, mas seu passado o condenou: sua ficha criminal acumula passagens pela polícia por roubo, tráfico e porte ilegal de arma. Além disso, não seria a primeira ousadia do seu currículo. Segundo o delegado ele teria assaltado um estudante de outra faculdade na Zona Norte da cidade em 2009. Na época em que trabalhava como auxiliar de serviços gerais.

No final de junho de 2013 Jonas chegou a ser detido por tráfico pela Brigada Militar, mas conseguiu fugir da viatura na qual era encaminhado para exame no Departamento Médico Legal. Desde o dia 5/09/2013 cumpre pena no Presídio Central.

A escritora norte-americana Helen Keller disse, certa vez, que “a segurança é geralmente uma superstição que não existe na natureza”. Ela identificou uma possível utopia moderna em um mundo que só permite prevenção e resposta ao risco. E este risco está para o cotidiano como o destino está para vida.

No meio de todo o tumulto de reações e sentimentos um estudante de 22 anos que presenciou o crime desabafou: “a gente não sabe o que esperar, e acha que na sala de aula está seguro. Só que não está. Tenho medo de voltar pra aula”.

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